Situação financeira e o diagnóstico de câncer

É sabido, desde há muito, que as classes com melhor situação econômica têm mais saúde física e mental. Isto obviamente leva os indivíduos a uma menor mortalidade e maior longevidade. Por que motivos os que possuem mais recursos têm estas vantagens? Uma suposição óbvia é que, além de outros fatores, isto, devia-se a uma maior e melhor assistência médica. Novas pesquisas, no entanto, têm demonstrado que uma utilização muito grande de serviços médicos pode ser até prejudicial. Várias pesquisas apontam nesta direção. A população com maior capacidade econômica tem a tendência de super utilizar os serviços médicos. Os motivos são vários. Em primeiro lugar pela sua maior capacidade de pagá-los. O outro fator é o marketing agressivo do sistemas de saúde.
A investigação na probabilidade de câncer é um dos setores onde isto acontece. O número excessivo de exames, nesta área, tem preocupado as autoridades de saúde. Não só muitas consultas, mas também uma muito maior utilização de exames laboratoriais e de imagem. Como resultado, mais diagnósticos precoces e, infelizmente, também mais erros.

Pesquisas têm analisado o comportamento dos quatros mais frequentes tipos de câncer humano. Foram estudados os tumores de ma­­ma, próstata, tiróide e melanoma. Observou-se que o número de ca­sos destas patologias vem aumentando. No entanto, a morta­lidade por elas não tem se elevado. O aumento da incidência foi maior nos países de melhor economia. No entanto, a mortalidade foi semelhante entre eles. Este tipo de comportamento ocorreu não só quando se analisou o conjunto das malignidades, como também ca­da uma de­las individualmente. Estes dados sugerem que alguns dos diagnós­ticos de tumor, nos que fizeram mais exames, tenham sido falhos.

A principal causa da redução da mortalidade, muito provavelmente, ocorreu por conta dos melhores recursos terapêuticos atualmente disponíveis. Outras pesquisas também têm sugerido que muitas investigações na população não trazem benefícios e até pelo contrário. Muitos exames, mais procedimentos e muitos deles acarretando efeitos colaterais graves. A dosagem do PSA, substância produzida pela próstata, era recomendada ser realizada anualmente após os quarenta anos de idade. Vários estudos demonstraram que esta conduta não trouxe quaisquer benefícios. Muito pelo contrário.

A mortalidade foi semelhante e em alguns estudos foi até menor no grupo que não fez o exame. Além disto, por conta da elevação do PSA vários procedimentos foram realizados desnecessariamente algumas vezes e como resultado sequelas graves ocorreram. Disfunção erétil, incontinência urinária, lesões intestinais entre elas. Por conta disto, a conduta recomendada pela sociedade americana de urologia é só realizá-los nos homens após os 50 anos e uma avaliação a cada 2-3 anos até os 75 anos de idade. Também se modificou a conduta quanto à mamografia por conta de erros na sua interpretação, o que motivou a realização de procedimentos onerosos e mutilantes.

Este tipo de conduta não é recomendável para os que tem mais fatores de risco, como referência de casos na família. Um outro procedimento que precisa ser modificado é a realização da ultrassonografia da tiróide em todas as mulheres. Isto tem acarretado inúmeros procedimentos custosos e agressivos. Mais de 70% das mulheres têm nódulos nesta glândula. E quando este tipo de problema é apenas detectável por este exame, esta patologia não tem repercussão clínica. Em suma, o exame só deve ser feito quando se palpa no exame físico um nódulo na tiroide. Estamos necessitando diminuir o número de exames dos mais ricos e aumentar para os que tem indicação de realizá-los e não tem como fazê-los.

Fonte: Folha de Pernambuco

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