No panhipopituarismo, o controle sobre a produção de hormônios essenciais para a vida fica comprometido. Saiba mais sobre a condição e a rotina de quem vive com ela.
Quando teve um tumor em uma glândula do cérebro em 2013, a professora de educação física Roberta Ladeira, 36, não esperava que teria uma rotina de reposição de quase todos os hormônios clássicos essenciais para a vida e de 12 medicamentos diários. Isso porque, com o tumor, ela acabou perdendo a hipófise, glândula considerada “mestre” por controlar todas as outras do corpo.
“Eu não tinha ideia que minha vida seria completamente diferente. Eu nem sabia que isso existia”, conta.
Roberta descobriu o tumor após perceber a visão embaçada e sentir fortes dores na cabeça. Quando procurou o hospital, não teve tempo nem de pensar muito: foi direto para a cirurgia.
Ela lembra apenas que foi avisada um pouco antes do procedimento que havia um risco para a sua visão – já que o câncer pressionava parte do nervo óptico. “Quando acordei, pensei: estou enxergando; então, tudo bem”.
As complicações que mais afetaram sua vida vieram depois, contudo. Um dos primeiros avisos foi quando uma psicóloga entrou no quarto para uma conversa difícil. “Ela veio me avisar que eu não poderia ter mais filhos”, conta.
Como já tinha um filho, a notícia não abalou tanto Roberta. “Mas eu não imaginava que seria assim.”
Essa não seria a única notícia. Após a retirada da glândula, Roberta desenvolveu uma doença chamada panhipopituarismo, uma desregulação de quase todos os hormônios clássicos essenciais para a vida. Não há informações exatas sobre a prevalência da doença, mas a condição é considerada rara – quando a doença atinge em média 1,3 pessoas em 2 mil.
A importância da hipófise é tanta que ela também controla a produção de hormônios sexuais e por isso a dificuldade em ter filhos, explica José Antonio Miguel Marcondes, endocrinologista do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo.
Por conta da doença, Roberta toma 12 medicamentos todos os dias e periodicamente viaja à Belo Horizonte (MG) para acompanhamento especializado. Ela mora em Coimbra, cidade localizada a 344 km da capital mineira. Ela também parou de dar aulas e de dançar.
“Eu tentei a dança por três anos, mas depois vi que não dava. A pressão caia demais. Ficava muito tonta. Eu saia gelada e tinha taquicardia”. conta.
“Fiquei uma velhinha”, brinca.
Os hormônios que precisam ser substituídos
| ACTH | Induz à produção de cortisol, que controla a resposta ao estresse |
| TSH | Estimulante da tireoide, que controla o metabolismo |
| GH | Avisa sobre a necessidade de produção do hormônio do crescimento |
| FSH | Regula a produção de espermatozoides e a maturação de óvulos |
| PROLACTINA | Avisa sobre a necessidade de produção de leite |
| LH | Estimula a produção de testosterona, nos homens, ou de progesterona, nas mulheres |
Sérgio Suzuki, neurocirurgião do Núcleo de Neurocirurgia do A.C. Camargo Cancer Center, explica que nem todos os tumores da hipófise vão desencadear a desrregulação de hormônios – que só vai ocorrer quando é preciso remover a glândula.
“Poucos tumores da hipófise têm intervenção cirúrgica. A maioria pode ser tratada com medicamentos”, mostra Suzuki.
A reposição do cortisol e mudanças de humor
“Em várias situações de estresse, como uma pneumonia ou uma cirurgia, por exemplo, o corpo precisa produzir mais cortisol para lidar com a nova situação. Esse é um dos hormônios que precisam ser repostos”, explica.
“As nossas mudanças hormonais causam muitas alterações de temperamento. Essa parte é muito importante. A depressão deixa os pacientes piores que a própria doença”, conta Roberta.
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“Sem esse hormônio, o rim perde a capacidade de reter água”, explica Marcondes.
Como o corpo acaba perdendo muita água, a concentração de açúcar no sangue aumenta, deflagrando a diabetes.
“Quando eu estava no hospital, comecei a sentir muita sede e a urina ficava branca. Foi aí que eu descobri também que eu tinha desenvolvido esse tipo de diabetes”, diz Roberta.
A prolactina, por exemplo, avisa as mamas quando a produção de leite é necessária. Também o cortisol, dentre várias funções, informa o coração que será necessário bombear mais sangue para lidar com o estresse.
Em situações normais, o organismo libera esses hormônios conforme a necessidade.
Mas no panhipopituarismo não adianta ter a necessidade: o corpo não vai secretar 6 dos nossos hormônios, muitos deles vitais para a vida.
Roberta conta que aprendeu a lidar com a doença, apesar de algumas idas ao hospital, já que nem sempre a reposição de hormônios com medicamentos consegue reproduzir o ajuste natural que é feito o tempo todo no organismo.
Ela também montou uma associação a PanDI, que tenta ajudar pessoas com os desafios de tantos medicamentos e acompanhamentos periódicos.
“Muita gente não trata direito os sintomas e não relaciona o que está sentindo com a doença. É comum ver pessoas com depressão, pensando em suicídio, por exemplo, sem saber que esse é um aspecto que deve ser tratado”, conta.
“Eu acredito que não estão dando prioridade para a gente. Tão deixando a gente morrer mesmo”, desabafa.
O G1 entrou em contato com a Secretária Estadual de Saúde de Minas Gerais, que informou ter feito o pedido para a compra do medicamento, mas houve um problema com o fornecedor. Segundo a pasta, há dificuldades com a fabricação da injeção na forma de caneta.
A secretaria informa ainda que realizou um processo licitatório para a compra do medicamento na apresentação de ampola e aguarda a entrega por um novo fornecedor.
“Sendo assim, tão logo seja entregue, o mesmo será disponibilizado na apresentação ampola”, concluiu a pasta, em nota.
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Livial – Ajuda a repor o estrogênio, hormônio feminino;
Acetato de Desmopressina – Spray nasal usado para o controle da diabetes insipidus, condição do aumento da glicose pela excreção excessiva de urina;
Slow-K – Ajuda a repor a ausência de potássio no sangue;
Prednisona – Ajuda a substituir a cortisona, um tipo de hormônio produzido pela suprarrenal;
Suplemento de cálcio – Repõe o cálcio em alguns casos. É necessário por disfunções da paratireoide, que secretam o paratormônio, que ajuda a regular os níveis de cálcio no sangue;
Fluoxetina – O antidepressivo é indicado para as alterações de humor provocadas pelas mudanças hormonais;
Divalproex – Moderador de humor também usado para as alterações de humor;
Alprazolan – Um tipo de ansiolítico usado para o controle da ansiedade;
Sinvastatina – Usado para o controle do colesterol;
Injeção Genotropin – Hormônio do crescimento. Ele é usado nesse caso para ajudar na manutenção da massa magra e no controle da osteoporose.



