No principal hospital de cardiologia de Pernambuco (Procape), mulheres são maioria nas enfermarias de doença coronariana. Na última terça-feira eram 18, contra 14 homens. No setor de cardiologia do Agamenon Magalhães, representam 53% da demanda. Nas estatísticas do Estado, responderam, em 2011, por 14.031 hospitalizações em razão de doença cardiovascular, 484 a mais que os homens. Infartadas ou com outros problemas, têm sido vítimas das múltiplas jornadas e exigências, de hábitos copiados dos homens e de um estresse superior ao deles.
Às vezes mal compreendido pelos homens, extremamente acolhedor quando inspirado pelo instinto maternal e a mil por hora para dar conta das múltiplas jornadas, cobranças e concorrências. O coração da mulher, com tantas funções e decepções, vem adoecendo muito. Hoje, dia internacional dedicado a elas, a Sociedade Brasileira de Cardiologia faz um alerta vermelho: pessoas do sexo feminino têm, aos 45 anos, 30 vezes mais chance de infartar do que os homens.
Dessa faixa etária até os 65 anos, o risco é 20% maior que entre o público masculino. Estatísticas da Secretaria Estadual de Saúde confirmam: as mulheres foram maioria entre os hospitalizados, em 2010 e 2011, por doença cardiovascular, como infarto e angina.
No Recife, a campanha dos cardiologistas será às 6h30, na Academia da Cidade da Beira- Rio, na Torre, Zona Oeste da cidade. “Queremos mostrar que a prática diária de exercícios físicos associada a outros hábitos saudáveis protege o coração da mulher”, diz a presidente da seção local da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sílvia Martins. Ela lembra que é recente a preocupação com o coração feminino. “Só na última década a SBC criou departamento para a mulher.” E alerta que o infarto, nas mulheres, pode ser discreto, confundido com gastrite. “Às vezes, também, ela só tem uma dor no queixo”, cita.
Segundo a cardiologista, a maior participação da mulher no mercado de trabalho e o acúmulo de tarefas como estudo, cuidar dos filhos, da casa, da família, também a empurra para o estresse e hábitos até então masculinos, como uso de cigarro, bebida alcoólica e alimentação gordurosa. Para aumentar a sobrecarga, além de chefes de família, as mulheres são obrigadas a se submeter à ditadura da beleza e da sensualidade, produzindo mais estresse. “Com tantas cobranças, ela se estressa rapidamente. Aumentam as chances de se tornar hipertensa e ter doença coronariana”, diz.
Nas enfermarias do principal hospital de cardiologia do Estado, Pronto-Socorro Cardiológi-co de Pernambuco, histórias de estresse se repetem nas enfermarias de doença coronária, onde são tratadas as que infartam ou obstrução grave nas artérias. O diretor do Procape Sérgio Montenegro Filho, com mais de 30 anos de experiência nesse campo da cardiologia, afirma que além de ter crescido o número de mulheres vítimas de infarto, a cada dia chegam pacientes mais jovem.
Dulcinéia Gomes da Silva, 64 anos, era uma das 18 que ocupavam, terça-feira, o quinto andar do Procape, reservado aos que sofrem de problemas coronários. “Já perdi a conta dos infartos que sofri. Estou aqui por mais um”, disse a mulher forte, de 1,68 metro que por 30 anos vendeu crustáceos no Mercado de São José e inspirou música em sua homenagem. Mãe de seis filhos, diabética desde os 20 anos, bem-humorada mas muito exigente, acabou sofrendo cedo: “Fiz três angioplastias para dar passagem ao sangue”.
Waldete Almeida, 55, internada na mesma enfermaria, aguarda cirurgia. Só descobriu problema no coração no fim do ano passado, quando foi internada para tratar doença circulatória nas pernas. “Arrependo-me muito, hoje, pelas extravagâncias que fiz”, conta. E onde ela exagerou? ” Sou faxineira, criei oito filhos trabalhando de manhã e de tarde na casa dos clientes e ficando acordada até as 2h, em casa, para cuidar da família.” Além disso, fumava e admite que não consegue deixar de lado doces e comida gordurosa.
O fumo, concentração de tarefas e estresse também levaram a comerciante Maria das Graças Alcântara, 58, ao hospital. “Fumava mais na hora do estresse.” Mãe, avó, dona de casa e de um bar em Salgueiro, no Sertão, sempre se dividiu entre a família e o trabalho. Nos últimos cinco anos teve dois princípios de AVC e um cateterismo recente indicou cirurgia para evitar infarto. “Minha mãe é a viga da família, o alicerce de tudo. O adoecimento dela serve de exemplo para nós”, diz a filha Aparecida, telefonista. “Vou começar a fazer caminhadas”, promete.
Fonte: Jornal do Commercio



