O Simepe afirma que os recursos tecnológicos podem colocar em risco a eficiência do diagnóstico
Só uma ligadinha, ou só um “zap”, podem parecer simplificadores do nosso tempo com relação a uma compra, um encontro, um aviso e até uma consultoria financeira. Mas quando se trata de saúde, a atenção tem que ser muito maior quando se precisa de resultados via celular.
No último dia 6 de fevereiro, o Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe) entrou com um pedido de liminar com o objetivo de suspender os efeitos da resolução 2227, de 13 de dezembro de 2018, do Conselho Federal de Medicina (CMF). A liminar em questão define a telemedicina como exercício da medicina mediado pela tecnologia, permitido em território nacional.
O Simepe afirma que os recursos tecnológicos podem colocar em risco a eficiência do diagnóstico. A entidade alerta que o exame presencial do paciente é fundamental e insubstituível. Carolina Brito, jurista do escritório Buarque & Brito Advocacia, confirmou que a liminar do Simepe tem fundamento. “O processo se baseia em princípios fundamentais da Carta Magna, denunciando por meio de uma Ação Civil Pública (ACP) a infração do princípio constitucional pela norma 2227”, diz Carolina.
Para Jessica Cesário, médica residente do Hospital das Clínicas, o diagnóstico do paciente seguido de decisão clínica e terapêutica baseado na consulta pelo celular é contraditório, visto que a propedêutica médica, inspeção, percussão, palpação e ausculta, não seria aplicada pela consulta usando o aparelho.
“Uma boa história clínica do paciente dá para o médico o guia para uma hipótese diagnóstica, mas o exame físico é essencial para percorrer este caminho”, comenta. Sobre a conversa com o paciente, a médica continua “O paciente é capaz de falar sobre sua dor, suas angústias e sintomas, mas é o médico, treinado e capacitado que vai avaliar como essas queixas se reproduzem em sinais do exame físico do paciente.”
A decisão da CFM sobre tornar a consulta por celular facilitadora e permitida, reconhecida como forma de prestação de serviços médicos tende a ser explorada, em massa, por operadoras e seguradoras de saúde, onde o médico precisa entregar produtividade, segundo a ACP do Simepe. “Diferente do que propõe a resolução de ‘reduzir’ custos, a ausência de um exame clínico adequado pode levar a aumento de solicitações de exames complementares e erros diagnósticos”,comentou a médica.
Na resolução 2227, a CFM defende a consulta por celular para atendimento de pacientes em locais remotos e longe das instituições de saúde, como uma evolução natural dos cuidados em saúde no mundo digital. Para Jéssica, a declaração significa uma luta perdida. “Ao invés de lutarmos para levar médicos, equipe e suprimentos para locais remotos para fornecer uma assistência à saúde de qualidade, nos rendemos a disseminar ainda mais aquilo que era pra ser feito como exceção, como suporte temporário”, lamentou.
“Dou meu número para todas as pacientes com problemas mais sérios que precisam de cuidados ou que moram no interior, mas nunca prescrevo nada, meu número é um suporte para, caso ela tenha uma intercorrência, eu diga a ela a urgência mais próxima para ela ir”, salientou a médica. O diagnóstico e consulta pode ficar muito alterado, mesmo se for com coisas resolvidas pela descrição do paciente. “O fato é que pela internet, o paciente só fala da queixa base e pode omitir muita coisa que é insubstituível num exame presencial”, finalizou.
Fonte: Folha de Pernambuco



