Funcionários do Hospital Barão de Lucena, na Zona Oeste, afirmam que situação é caótica. Entidades médicas divulgaram carta aberta e pediram socorro.
Superlotação, mortes de crianças por falta de equipamentos médicos e pacientes esperando atendimento dentro de ambulâncias em meio à pandemia da Covid-19. Essas são algumas das denúncias de trabalhadores que atuam no Hospital Barão de Lucena, na Iputinga, na Zona Oeste do Recife, referência para casos respiratórios graves infantis.
Diante desse cenário, entidades médicas divulgaram carta aberta à sociedade e pediram “socorro”. No texto, elas apontam “situação caótica” na rede de saúde pública.
De acordo com um funcionário do Barão de Lucena que preferiu não ser identificado, o hospital registrou, dificuldades na assistência médica a pacientes devido à falta de equipamentos que funcionassem.
“Essa demora faz toda uma diferença no atendimento e assistência. As mães estão começando a perder os filhos por falhas técnicas que podiam ser evitadas”, afirmou o trabalhador.
De acordo com o trabalhador, pacientes com suspeita de Covid-19 ficam em um mesmo local. “Todos os quadros respiratórios ficam juntos, sendo Covid ou não, porque são considerados suspeitos. Quando sai o resultado [do teste], se tiver vaga na enfermaria, sobe para a enfermaria Covid. Se não tiver, continua onde está”, disse.
Segundo o funcionário do hospital, as enfermarias estão lotadas de pacientes, independentemente do dia. Em alguns casos, berços são colocados entre os leitos para atender à demanda de pacientes, o que desrespeita o distanciamento social.
“É preciso de mais leitos de enfermaria para dar vazão a tantos pacientes internados na emergência”, contou.
Uma outra funcionária que também preferiu não ser identificada alegou que, nos meses de março, a situação se agrava devido ao aumento natural de quadros respiratórios, mas, este ano, piorou devido ao novo coronavírus. “Nessa época, já é normal um aumento de doenças respiratórias, e com a Covid, a situação está muito pior”, afirmou.
Os trabalhadores também afirmam que a unidade de saúde não teve espaço, ao longo da semana, para receber pacientes e, por isso, as pessoas transferidas ao Hospital Barão de Lucena precisavam aguardar dentro de ambulâncias.
“Não havia lugar onde colocar paciente na emergência, então eles tinham que esperar dentro da ambulância. Algumas ambulâncias estavam trazendo duas, três crianças, o que não deveria”, afirmou o funcionário.
Resposta do governo
Por meio de nota, a Secretaria Estadual de Saúde disse que a direção do Barão de Lucena “reconheceu a demanda de pacientes pediátricos na emergência”.
A unidade afirmou que, “mesmo diante do atual contexto da pandemia da Covid-19 em todo o País”, “não nega atendimento aos seus usuários e que têm acolhido todos os pacientes admitidos no serviço”.
Ainda de acordo com o governo, a maioria dos casos que chegaram à unidade hospitalar nas últimas semanas “está relacionada a viroses sazonais desse período do ano”.
O hospital informou que, dos 164 pacientes pediátricos com sintomas respiratórios atendidos no mês de fevereiro, “apenas 6,5% teve resultado confirmado para Covid-19”.
Nas últimas 24 horas, informou o Barão de Lucena, foram realizados 29 atendimentos na emergência pediátrica do serviço.
A direção da unidade disse, ainda, que “não procede a informação de que pacientes não estariam sendo atendidos por falta de medicação, ou de funcionários”.
“O serviço conta com todos os insumos necessários para assistência aos usuários e, em caso de faltas pontuais, as medicações são substituídas, de acordo com protocolo médico já estabelecido. A escala de médicos e demais profissionais da equipe multidisciplinar dos plantões também está completa”, afirmou.
Atualmente, emergência pediátrica conta com 19 leitos voltados exclusivamente para pacientes que estão com sintomas respiratórios e precisam ficar em observação, de acordo com a direção.
“O hospital conta, ainda, com 28 leitos de internamento para estes pacientes, sendo 20 vagas de enfermaria e oito de terapia intensiva pediátrica (Covid). Além disso, a unidade também dispõe de leitos de retaguarda em uma de suas enfermarias para acolher essas crianças”, afirmou Secretaria de Saúde.
Por fim, a direção informou que a média de pacientes atendidos por mês na emergência pediátrica é de 500 crianças. “Grande parte dos casos poderia ser tratada nos serviços de baixa e média complexidade das redes municipais”, afirmou.
“E, buscando diminuir esse fluxo na referência estadual, a equipe tem trabalhado para melhorar a rotatividade dos leitos, agilizando a realização de exames e procedimentos para posterior alta médica, quando são casos leves; e se necessário, fazendo o encaminhamento para outros serviços da rede de assistência”, acrescentou.
Também por meio de nota, a Secretaria Estadual de Saúde informou que “tem monitorado permanentemente os indicadores de doenças respiratórias em crianças, atuando para expandir a rede de assistência e garantir o atendimento dos usuários”.
Segundo a pasta, “atualmente, Pernambuco conta com 143 leitos voltados para bebês e crianças acometidas com síndrome respiratória aguda grave (SRAG), sendo 51 leitos de UTI”.
O governo anunciou que “nos próximos dias”, a rede de saúde será reforçada com dez leitos de enfermaria e dez de UTI pediátrica no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip).
“Ao longo das próximas semanas, ainda serão abertos novos leitos pediátricos no município de Araripina, no Sertão de Pernambuco. Além disso, está aberto edital de contratualização de leitos na rede privada com vagas também voltadas para crianças”, informou.
Entidades médicas pedem socorro
Em uma carta aberta divulgada no sábado (13), o Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe), o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe), a Academia Pernambucana de Medicina (APM) e a Associação Médica de Pernambuco (AMPE) afirmaram que “é hora de um esforço conjunto de todos, indistintamente”, e que não podem admitir “a falta de leitos, insumos e equipamentos”.
“Em nossa realidade, encontramos unidades municipais e estaduais em situações caóticas; o sentimento dos profissionais de saúde é de desalento e a sensação física, é a de exaustão. Os médicos se sentem impotentes em não conseguir socorrer, de forma adequada, os pacientes, vítimas da Covid-19”, afirmaram as entidades, na nota.
Urgência pediátrica desativada temporariamente no Recife
A urgência pediátrica da Policlínica Barros Lima, no bairro de Casa Amarela, na Zona Norte do Recife, foi desativada temporariamente na terça-feira (9) para que o espaço receba leitos de Covid-19, segundo a prefeitura.
Trabalhadores da saúde que atuavam no local foram transferidos para outras unidades e falam em superlotação e demora nos atendimentos, pois, entre março e junho, há aumento natural de pacientes com quadros respiratórios.



