Entidades médicas apontam superlotação como principal problema do Hospital da Restauração: ‘catástrofe anunciada’, diz presidente de sindicato

Simepe e Cremepe realizaram fiscalizações, nesta terça (3), na unidade, onde placas de gesso desabaram e água de cano estourado atingiu pacientes.

A superlotação é o principal problema do Hospital da Restauração (HR), no Recife. É o que apontam o Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe) e o Conselho Regional de Medicina (Cremepe). “É uma catástrofe anunciada. Uma operação de guerra, que é o que escutei lá e que resume tudo”, afirmou o presidente do Simepe, Walber Stefano (veja vídeo acima).

Equipes das duas entidades realizaram fiscalizações, nesta terça (3), na unidade de saúde. Na segunda (2), duas placas de gesso desabaram e água de um cano estourado atingiu pacientes.

Em entrevista ao g1, Stefano descreveu a dificuldade que é andar pelos corredores da unidade de saúde por causa da grande quantidade de pacientes. Esse problema faz parte de denúncias recorrentes feitas por pacientes, acompanhantes e trabalhadores.

O presidente do Simepe e o presidente do Cremepe, Maurício Matos, citaram o problema que é fazer qualquer reforma ou até manutenção no hospital com uma quantidade tão grande de pacientes.

Stefano disse que foram encontrados 200 pacientes no setor de trauma, que tem capacidade para atender 100 pessoas.

“Vem trauma de todo o estado para cá, porque as redes não têm um serviço que consiga dar conta. Precisamos de outros serviços que atendam trauma. O estado não pode achar que isso é uma coisa normal. Por que não está funcionando ainda o atendimento de trauma no Hospital Alfa, como era previsto?”, declarou Walber Stefano.

O Simepe realizou a vistoria nas principais alas da unidade de saúde. O presidente disse que a estrutura precária vem sendo denunciada há bastante tempo.

“Não foi registrado nenhum óbito em decorrência desse problema, mas não é só a água. E se a rede de gás deixa de funcionar? E quando respiradores não funcionarem? E os geradores?”, questionou.

Maurício Matos afirmou que o Cremepe visitou o local onde houve a queda do teto e também o setor de emergência, que passa por uma reforma (veja vídeo abaixo).

“O hospital é um hospital antigo, velho, que sofre por falta de uma manutenção, e uma restruturação adequada”, afirmou.

Segundo o presidente do Cremepe, o HR, no momento, está funcionando de forma adequada. Ele disse que a equipe de fiscalização coletou dados que serão analisados e, depois, divulgados.

“Aqui, é o reflexo do problema de outras unidades de saúde do interior do estado e de outras prefeituras, que infelizmente não cumprem com o seu papel de bem assistir o seu munícipe”, declarou.

O Conselho Regional de Enfermagem (Coren) também fez uma fiscalização no local e disse, nesta terça (3), que vai elaborar um relatório e pedir providências (confira mais abaixo). O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) também pediu explicações sobre o ocorrido.

Queda do forro

Imagens enviadas ao WhatsApp da TV Globo mostram a queda do forro e o desespero de pacientes e funcionários. Havia várias pessoas internadas no local, algumas delas desacordadas (veja vídeo acima).

Não houve feridos e nenhum paciente teve complicação devido ao ocorrido, segundo a Secretaria Estadual de Saúde.

Quando o forro desabou, segundo o hospital, dez pacientes da sala vermelha e 86 pacientes da sala laranja foram removidos provisoriamente e depois retornaram ao local.

Problemas recorrentes

A Secretaria Estadual de Saúde disse, em nota, que o problema “foi pontual” e não está relacionado à estabilidade estrutural do prédio do HR.

Também afirmou que o hospital tem equipes de engenharia e manutenção que realizam vistorias e os devidos reparos na estrutura física (confira resposta mais abaixo).

O Conselho Regional de Enfermagem, no entanto, afirmou que a unidade de saúde tem problemas estruturais antigos, que já foram alvo de outras reclamações.

Uma equipe de fiscalização esteve no hospital na noite da segunda e constatou a existência de problemas já vistos outras vezes.

Ainda segundo o Coren, o posto de enfermagem não está em condições adequadas, o local de repouso dos profissionais é precário e o teto tem vários pontos de infiltração e mofo.

Do lado de fora do hospital, é possível ver ferragens expostas. Profissionais relataram que a direção foi avisada sobre as infiltrações e pouco foi feito.

“Existem problemas estruturais de fiação exposta, tem muito bolor, muita parede molhada, chão rasgado mesmo. Não é conforme previsto nas normativas de administração hospitalar. Não é algo novo. […] Em outras fiscalizações, tínhamos identificado, fizemos relatórios e encaminhamos para os órgãos competentes”, declarou a chefe de fiscalização do Coren, Ivana Andrade.

O Coren informou que vai produzir um relatório e enviar o documento ao Ministério Público de Pernambuco e à Vigilância Sanitária do estado, além de cobrar judicialmente, através de uma ação civil pública, que sejam contratados profissionais para suprir o déficit existente.

Em nota, o MPPE informou que Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde da Capital determinou que fosse enviado um ofício à direção do hospital “para que se pronuncie sobre as imagens e as providências adotadas para garantir a assistência aos pacientes desse setor”. O prazo dado foi de 24 horas para o diretor se manifestar.

Resposta

A Secretaria Estadual de Saúde (SES) disse, em nota, que existe uma grande demanda nas emergências estaduais, “provocada, sobretudo, pela demanda reprimida provocada pela pandemia da Covid-19 e a falta de resolutividade nos serviços municipais”.

A secretaria também afirmou que os hospitais estaduais não recusam atendimento, garantindo assistência a todos os pacientes.

Sobre a estrutura do Hospital da Restauração, a secretaria alegou que, apesar do ocorrido, o serviço estava funcionando normalmente e que não houve qualquer interrupção nos atendimentos.

Além disso, reafirmou que o problema “foi pontual”, que nenhum paciente sofreu danos e que o serviço não foi paralisado.

A secretaria afirmou que o orçamento de 2022 para reformas, obras e equipagem das unidades da rede estadual de saúde é de mais de R$ 200 milhões e que a “requalificação do HR está em fase de projeto e também está entre as prioridades”. Enquanto o processo não é concluído, a equipe de manutenção predial foi reforçada, disse o estado.

Para tentar diminuir a superlotação do HR, o governo do estado apontou que, no começo do ano, fez a requisição administrativa do prédio onde agora funciona o Hospital de Retaguarda de Neurologia, que é a antiga Maternidade Santa Lúcia, no Prado.

“A unidade conta, atualmente, com 55 leitos e está recebendo pacientes encaminhados pelo HR, ajudando a minimizar a demanda reprimida no serviço. Além disso, a SES-PE abriu credenciamento para unidades de saúde ampliarem a oferta de leitos de retaguarda em neurologia”, disse ainda.

A SES apontou, ainda, que estuda mudar o perfil no Hospital de Referência à Covid-19 Unidade Boa Viagem (Antigo Alfa), na Zona Sul do Recife para também atuar como retaguarda do HR.

Maior unidade do estado

O Hospital da Restauração é o maior da rede pública de Pernambuco e a principal emergência para o atendimento de pacientes politraumatizados do Norte e do Nordeste.

O HR é referência em assistência nas áreas de neurocirurgia, neurologia, traumato-ortopedia, cirurgia geral, bucomaxilofacial e vascular, tratamento de queimaduras, pediatria e clínica médica.

Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, o hospital realiza, em média, 180 atendimentos por dia na emergência e que o HR possui 830 leitos registrados no Ministério da Saúde.

Fonte: G1

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