Esquistossomose: a doença da água suja

No caminho da casa do zelador Edson Alves da Silva, 57, na comunidade Novo Horizonte, em Barra de Jangada, Jaboatão dos Guararapes, desviar das poças de lama é quase uma obrigação diária. Até chegar na residência, onde o senhor mora com a esposa, a dona de casa Josinete da Silva, 52, esgotos a céu aberto podem até passar despercebidos por quem já é acostumado com o descaso na comunidade, mas não para quem vai pela primeira vez.

Sentado tranquilo no sofá, quase ninguém imagina que, do outro lado dos portões de madeira da simples residência, seu Edson já está com varizes no esôfago, vomitou sangue até receber três bolsas no Hospital da Restauração (HR) e é uma das vítimas da segunda doença parasitária mais devastadora do mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS): a esquistossomose.

Conhecida também como doença do caramujo, barriga d’água ou xistosa, perde mundialmente apenas para a malária e afeta 200 milhões de pessoas no mundo, principalmente as que moram em regiões sem o mínimo de saneamento básico ou perto de rios e lagos que frequentemente transbordam com as enxurradas. Na vizinhança de seu Edson, lama e esgoto fazem parte do dia a dia dos moradores.

A rua, de terra, convive com as imensas poças por causa das corriqueiras chuvas do inverno, o que facilita a propagação da doença. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde (SES), em 2010, foram diagnosticados 10.871 casos de xistosa. Já no ano passado, foram examinadas cerca de 162 mil pessoas, sendo 8.075 com diagnósticos positivos. Em 2009, o maior índice foi registrado na cidade de Limoeiro, Agreste de Pernambuco, onde 3.572 de pessoas tiveram a doença.

De acordo com a diretora geral de Controle de Doenças e Agravos da SES, Roselene Hans, os maiores índices de esquistossomose ainda estão registrados em municípios da Zona da Mata, como Carpina, Palmares e Água Preta. “Na época de chuva, fica o risco dos caramujos espalharem os ovos, que eclodem e fazem com que as pessoas se contaminem. Em áreas ribeirinhas, o caso é muito mais evidente, já que os caramujos se alojam nos rios e lagos”, explica a diretora.

Segundo ela, são 93 cidades propícias no Estado. “Pernambuco está relacionado às baixas condições sanitárias. As pessoas contaminadas, por evacuarem (defecarem) muitas vezes próximas aos ambientes que têm água, estão depositando os ovos que vão eclodir e proliferar a doença”, relata a presidente Sociedade Pernambucana de Infectologia, Heloísa Ramos de Melo.

Em Jaboatão do Guararapes, os casos servem como exemplo. A equipe do Núcleo de Esquistossomose e Filariose do Centro de Vigilância Ambiental (CVA) do município, responsável por identificar os casos locais e realizar a orientação nas comunidades, revela como é feito todo o trabalho em torno da doença. “Precisamos passar a informação para a sociedade, para que ela tenha conhecimento de como é feita a contaminação e como identificar o caramujo”, conta o chefe o núcleo, José Holanda Neto.

Durante o caminho de muita lama até casa de seu Edson, José Holanda Neto revela que, em 2011, cerca de 400 pessoas tiveram a confirmação da doença. Desses, 80% foram devidamente tratados. “Muitos se recusam até mesmo a fazer o exame de fezes e de sangue, já para não descobrirem a doença. O remédio causa tontura, enjoo e outras reações nas quais as pessoas têm receio”, relata.

Este ano, segundo ele, houve duas mortes pela doença no município. Já ano passado, foram 15 óbitos. “As pessoas só deixam para descobrir quando a doença já está bastante avançada. A esquistossomose pode ficar no corpo do homem por 30 anos, sem se desenvolver”, diz José Holanda Neto.

Esse foi o caso de seu Edson, que em agosto passado descobriu a doença pouco tempo depois de desmaiar em casa após vomitar muito sangue. A esposa, dona Josinete, socorreu o marido, que ficou internado no HR durante quatro dias. “Vivo sentindo diarreia, tonturas e pontadas na barriga. Quando comecei a vomitar foi que vimos que não era normal”, revela o zelador. Hoje, seu Edson conta com o acompanhamento do Programa Saúde da Família (PSF) de Novo Horizonte e ainda não recebeu o medicamento para o tratamento.

Fonte: Folha de Pernambuco

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