Planos de saúde: especialistas quase inacessíveis

 

Imagem: Google

Na semana passada a professora aposentada Maria Gilda Veras, moradora de Afogados da Ingazeira, no Sertão, perdeu a consulta com o cardiologista no Recife, depois de uma viagem de mais de quatro horas de carro e uma espera de três meses para a consulta. Cheguei 10 minutos depois e a secretária disse que o médico não podia mais atender. O trânsito do Recife me atrasou, reclama. O engarrafamento na cidade é o menor dos problemas para pacientes como Maria Gilda, principalmente quando a necessidade é por consulta com um cardiologista. De acordo com um levantamento do Sindicato dos Médicos (Simepe), os profissionais especializados no coração estão entre os mais difíceis de encontrar nos livrinhos de convênios dos planos de saúde, assim como clínicos gerais, pediatras, ginecologistas e obstetras. O quadro tem explicação. Em três anos, houve uma redução de 20% no número de profissionais atendendo por plano de saúde. Neste período, a quantidade de beneficiários cresceu 14%. O resultado são as esperas maiores por uma especialista.

 

São mais clientes nos planos de saúde e menos disponibilidade dos médicos em atendê-los, principalmente em determinados produtos das operadoras, diz o diretor do Simepe Mário Lins referindo-se aos planos mais baratos. Segundo ele, os preços pagos pelos planos aos profissionais desestimulam o atendimento por convênio. Fizemos o juramento de Hipócrates, não foi voto de pobreza, arremata. A categoria reclama de baixa remuneração e burocracia para receber pelo serviço. Alguns planos, principalmente os ligados à Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge)  42% do setor , querem pagar R$ 38 por consulta. A categoria luta para aumentar para R$ 80 a partir de novembro, um patamar considerado aceitável.

O consultório que encantava as gerações mais velhas não é mais atrativo aos olhos dos novos profissionais, que vêm no serviço dos hospitais, concursos públicos e PSF uma boa alternativa ao risco de se montar um consultório. Os salários e os horários certos de trabalho, 13º e férias chamam mais a atenção da nova geração. Com mais de 30 anos de profissão dedicados a consultas das crianças, o pediatra Walmir Pinheiro lamenta o ponto de vista de seus novos colegas, mas reconhece que é mais difícil hoje o jovem se dedicar ao consultório. Com as remunerações baixas pagas pelos convênios, os médicos que já têm consultório fecham e vão trabalhar na UPA. Não tem aperreio com plano e contas a pagar, diz.

O resultado para os pacientes é passar mais tempo na sala de espera do consultório ou botar a mão no bolso para pagar particular e antecipar a consulta. O maior problema hoje é marcar consultas, com os exames, se estiver tudo certinho o plano autoriza logo, diz a comerciante Adriana Oliveira, que tirou as últimas semanas para realizar seu check-up, o que incluiu visitas a ortopedista, cardiologista e clínico. Uma das consultas marquei particular pois precisava do parecer médico para o clínico examinar. Pelo plano a espera é maior”, atesta.

Atualmente, os planos são obrigados a respeitar prazos de atendimento: uma consulta simples, por exemplo, tem de ser disponibilizada em até 7 dias. Mas na prática isso não vem acontecendo pois, dependendo da especialidade, não há a oferta necessária de profissionais. Os Procons não possuem registros de reclamações levando-se em consideração as especialidades médicas. Nem mesmo a Agência Nacional de Saúde (ANS) tem esses números, apesar de apertar os planos para que cumpram os prazos de atendimento previstos na Resolução 259/2011 que determina tempos máximos de espera do paciente.

Dados da Federação das Cooperativas de Especialidades Médicas (Fecen), que reúnem as cooperativas de profissionais, ajudam a entender que, enquanto o número de beneficiários de planos de saúde crescem, centenas profissionais de especialidades médicas têm registrado descredenciamento de convênios. Hoje são 1.495 médicos registrados nas cooperativas de especialidades que atendem planos de saúde. Há três anos esse número era de 1.800, uma redução de 20%, contabiliza Lins. Neste período o número de clientes em planos aumentou em 14% no País. Atualmente são 1,2 milhão de usuários de planos em Pernambuco e 47 milhões no Brasil.

Lins destaca a redução de pediatras, cardiologistas, ginecologistas e obstetras, cirurgiões e até mesmo os clínicos que atuam no Estado disponíveis nos livrinhos dos planos. A Coopeclin (cooperativa dos clínicos) tem 300 associados, há três anos eram 500. A Copepe (pediatras) tem 140, eram 240. Copecardio (cardiologistas) tem 298 e antes era 420. Coopego (ginecologia e obstetras) tem 235 e era 500. Copecir (cirurgiões) tem 520 e tinha 620.

A redução do número de clínicos pode ser sentida nas emergências. “Estou com dor de cabeça, tomei remédio, não adiantou e vim pra emergência onde estou esperando mais de uma hora, preciso verificar minha pressão e não vem ninguém me atender”, reclamava o técnico em radiologia Alex Ferreira na quinta-feira passada em frente a uma das urgências hospitalares instalada na Ilha do Leite.

Abramge admite baixa remuneração

A Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge), que reúne as empresas com mais usuários no sistema suplementar, reconhece as baixas remunerações de algumas especialidades e indica que para outras há falta de profissionais porque exigem mais tempo de formação. “São vários fatores que reduzem o número de profissionais disponíveis para consultas”, explica o diretor regional da entidade, Flávio Wanderley.

Ele cita algumas razões básicas para falta de médicos nos consultórios. Primeiro a baixa remuneração dos profissionais das especialidades médicas de primeira linha, que são a pediatria, clínica médica, cardiologia, obstetrícia e ginecologia. “Essas sempre tiveram mais profissionais, então há a lei da oferta. Um pediatra não pode receber o mesmo que um neurologista, que tem menos profissionais no mercado. As especialidades menos procuradas pelos médicos são as mais complexas e exigem maior remuneração. Além disso, o clínico e o pediatra realizam consultas simples, não há exames que agregam no valor, como no caso do cardiologista, que faz um eletrocardiograma e cobra pelo exame”, defende. Quando a abordagem são os médicos de especialidades mais raras, muitos deles preferem nem trabalhar com planos.

Com isso, Wanderley explica que o jovem médico já tem a tendência de não escolher mas as especialidades de primeira linha e, quando o fazem, preferem ter carteira assinada num hospital público, privado, nos programas como o Saúde da Família ou arriscar um concurso para garantir a estabilidade. “Há também a verticalização do serviço. As operadoras optam em contratar os médicos para seus hospitais em vez de credenciá-los. Tudo isso diminui a oferta de consulta em consultórios.”

Ele salienta que os próprios profissionais preferem trabalhar com carteira assinada porque, além dos bons salários, não há um distanciamento do paciente, o que o desobriga de trabalhar além do expediente. “Essa relação de proximidade está diminuindo.”

Ele também utiliza como fator a concentração. “Temos superpopulação médica na capital e não temos no interior. A cidade do Rio tem mais médicos que Pernambuco todinho”, diz.

Fonte: Jornal do Commercio

 

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