Plano de saúde sem médico

O crescimento desordenado dos planos de saúde criou no Brasil uma situação paradoxal: há cada vez mais usuários, mais planos, porém quem precisa de médico especialista tem dificuldade de encontrar um profissional credenciado. Inclusive quando busca o atendimento de emergência. Em consequência, os serviços de proteção ao consumidor têm registrado o aumento de queixas, com o número de reclamações mais do que triplicando em quatro anos. A grita geral vem dos clientes e dos próprios médicos, que denunciam a remuneração baixa paga pelas empresas de convênios. E o impasse gerado se perpetua, sem que pareça haver vontade política e capacidade gerencial para resolvê-lo.

No domingo, dia 2, reportagem de Leonardo Spinelli, em Economia, voltou a tratar do assunto, mostrando a desventura de pacientes que amargam a espera de meses para conseguir uma consulta, quando conseguem. Cardiologistas, pediatras, ginecologistas e clínicos estão entre as especialidades em falta. O que aponta grave deformidade do sistema, já que esses médicos podem ser procurados tanto para patologias mais sérias, quanto para doenças comuns, cuja demora no diagnóstico e atraso no tratamento, além de piorar o estado debilitado do organismo, ainda elevam o estresse do cidadão, causando mais sofrimento.

De acordo com o Sindicato dos Médicos (Simepe), nos últimos três anos os planos viram minguar a quantidade de médicos em 20%, enquanto a quantidade de associados inflou em 14%. A inversão – que não devia ser permitida, em primeiro lugar – ilustra o paradoxo dos planos cheios de usuários, mas sem médicos. Como o sistema público de saúde é precário, a esperança vai para o sistema privado. Sem planejamento, o acréscimo de renda das classes emergentes só fez contribuir para inchar os planos, que continuaram a receber clientes.

Para a Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge), uma conjunção de fatores mercadológicos explica os problemas que afligem os usuários. Pode até ser. Mas o mercado desregulado e sem disciplinamento na saúde privada, no entanto, pode ser debitado da omissão do poder público, tanto quanto a péssima condição de hospitais e postos de saúde onde faltam remédios, material de limpeza, recursos humanos e respeito. Por um motivo simples: a regulamentação do setor cabe ao Estado, que deve monitorar e fiscalizar o seu pleno funcionamento diante das demandas da população. O que o brasileiro vê hoje é uma teia de incompatibilidades que atingem as mensalidades pagas pelos usuários, os valores repassados pelos planos aos médicos e a insatisfação de todos os envolvidos.

O decréscimo na oferta de especialistas desafia a paciência dos 47 milhões de usuários de planos no Brasil, dos quais 1,2 milhão em Pernambuco. Enquanto o círculo vicioso continuar, levando as pessoas a fugir da saúde pública e correr para planos particulares, e os médicos a fugir dos convênios, sem que nada seja feito para mudar isso, o melhor plano do cidadão é não depender do plano, e torcer muito para não ficar doente.

Fonte: Jornal do Commercio

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