No bairro Santo Antônio, zona urbana de Moreno, quando uma gestante falta ao pré-natal ou a mãe não leva seu bebê para avaliação e vacinação na Unidade de Saúde da Família, a agente comunitária de saúde vai na porta delas saber o motivo. Acompanhar de perto essa população mais vulnerável é o desafio diário do PSF, estratégia do SUS que, nessa cidade do Grande Recife, vem ajudando a ampliar a cobertura do pré-natal e a reduzir a mortalidade infantil.
Dados a serem disponibilizados ainda este ano pelo Portal da Saúde, em construção pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), mostram que Moreno reduziu de 2005 a 2010 a mortalidade infantil de 20,4 para 9,7 mortes por mil nascidos vivos. É a menor taxa do Grande Recife. Lá o PSF cobria em 2010, conforme o TCE, 72,3%. Hoje chega a 76%, segundo a secretária municipal de Saúde, Rufina Coelho. Ainda de acordo com o Tribunal de Contas, Moreno foi a 2ª cidade com melhor cobertura de pré-natal em 2010: 61,2%, perdendo apenas para Camaragibe (60,2%). O índice considera a proporção de mulheres que fizeram sete ou mais consultas de pré-natal.
Rufina credita os resultados à forma de trabalho. Criamos uma sala de situação em todos os PSFs, com planilha atualizada mês a mês. A cada trimestre reavaliamos e definimos novas estratégias para melhorar. A planilha é um cartaz enorme afixado na recepção do posto, com anotações sobre consultas de pré-natal, vacinação, atendimento odontológico, controle de pressão, tuberculose, hanseníase e outros indicadores.
É importante que elas acompanhem a saúde da gente, diz Cristiane Cavalcanti, 26 anos, grávida do primeiro filho. Da enfermeira Daniele Vasconcelos, do USF Santo Antônio, ela recebe orientação sobre alimentação e incentivo para amamentar. Maria Daiane Araújo, 28, que deu à luz Maria Eduarda há pouco mais de um mês, está seguindo o conselho direitinho. Está sendo tudo tranquilo, do parto à amamentação.
Moreno enfrenta problemas comuns a outras cidades. Dos 12 postos do Programa Saúde da Família, quatro estão sem médicos. Fazemos rodízio entre os profissionais para compensar a falta, observa Rufina, lembrando outra dificuldade: Moreno é pobre. A receita vem do Fundo de Participação dos Municípios e dos repasses do Ministério da Saúde. Mesmo assim, a cidade oferece R$ 7.200 como salário bruto aos médicos que se interessam em cumprir oito horas em pelo menos quatro dias da semana (o PSF deveria funcionar de segunda a sexta, mas há cidades flexionando o horário por causa da falta de profissionais).
Moreno consegue melhores indicadores do que Ipojuca, embora o valor investido por habitante seja quase três vezes menor: R$ 241 per capita em 2010.
CONTESTAÇÃO
O secretário de Saúde do Recife, Humberto Antunes, estranha a oferta de médicos da capital divulgada pelo TCE. Nosso indicador é de 0,88 por mil e não 0,17, alegou, informando que há 1.396 profissionais na folha de pessoal da secretaria. Reconhece a dificuldade para contratação de profissionais na rede pública. Mesmo oferecendo salário bruto de R$ 10.300 para atuação no PSF, por exemplo, há déficit de 20 profissionais nessa área. A Gerência de Avaliação de Programas e Órgãos Públicos do TCE, responsável pela produção do conteúdo do Portal da Saúde, explica que os indicadores são construídos a partir de informações do Ministério da Saúde. A referente a trabalhadores foi extraída do Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde (Cnes). Lá, em 2011, o número de médicos do SUS atendendo na esfera municipal do Recife variou de 313 a 214.
Fonte: Jornal do Commercio



