Médicos alertaram ontem, durante o último dia do 67º Congresso Brasileiro de Cardiologia, em Olinda, para o reaparecimento, em Pernambuco, de casos gravíssimos de febre reumática. A doença que começa com uma amigdalite, evolui para artrite e atrofia o coração. Mesmo assim não tem espaço nas políticas públicas do Brasil e estaria acometendo, anualmente, um milhão de crianças e adolescentes sem merecer qualquer ação do Ministério e Secretarias Estaduais ou Municipais de Saúde.
A febre reumática tem impacto enorme entre nós, perdemos crianças e jovens para uma doença facilmente evitável, filha clássica da injustiça social, considerou a cardiologista Cleusa Lapa, do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), do Recife.
Ela mostrou radiografias e imagens de ultra-som de recentes pacientes em estado crítico. Recebi este ano uma criança de 4 anos com extensa pericardite (inflamação da membrana que reveste o coração), situação só descrita há 50 anos, observou a médica. O paciente foi para a UTI e passou por cirurgia. Cleusa mostrou também um caso de edema agudo de pulmão numa criança que já tinha diagnóstico prévio de febre reumática mas não cumpria a profilaxia com penicilina benzatina (injeção de bezetacil), devido à dificuldade de acesso ao remédio. Com frequência os doentes precisam de recorrentes implantes de válvula mitral.
Cepas mais virulentas poderiam justificar o retorno de casos mais graves, segundo a médica. Mas, ao mesmo tempo, o cenário social favorece as complicações, com acesso precário ao sistema de saúde, diagnóstico tardio e profilaxia retardada. Pobre não vale nada na sociedade capitalista, completou Lurildo Saraiva, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco, lembrando que a doença afeta favelados no Grande Recife e pessoas em extrema pobreza no interior.
Paulo Ramos, com mais de 20 anos de experiência no tratamento de grávidas com sequelas de febre reumática em Pernambuco, explica que a frequência de cardiopatias em gestantes varia de 1% a 4%. Desses casos, 60% a 70% são em razão de sequelas da doença reumática. Durante a gravidez há modificações fisiológicas, como aumento da frequência cardíaca e do volume de plasma. Se há sequela de febre reumática, ela pode descompensar. O estreitamento da válvula mitral é o problema mais comum, com risco à saúde da mãe e da criança. Pode levar à insuficiência cardíaca, edema agudo do pulmão e embolia pulmonar.
Paulo Lavítola, cardiologista clínico do Instituto do Coração (Incor), da Universidade de São Paulo, trata pessoas com febre reumática há 30 anos. Ele apresentou estimativas sobre a enfermidade que ainda não é de registro obrigatório no País, embora há décadas venha destruindo a infância e provocando mortes precoces. Encontrou 2.500 internações hospitalares anuais no SUS atribuídas à doença. A partir desse dado e de projeções sobre as formas de manifestação, conclui que 200 mil casos sintomáticos ocorrem por ano, número que pode chegar a um milhão considerando a grande maioria sem sintomas. Mesmo silenciosa, a doença pode causar danos ao coração, que são descobertos tardiamente. No Incor, onde se tratam doentes de várias partes do País, 12 mil pessoas se internam por ano para corrigir defeito em válvula do coração. Dessas, cerca de 7.800 (65%) são sequeladas de febre reumática.
Fonte: JC



