SOROLOGIA Pesquisadores de três unidades da Fiocruz, inclusive do Recife, dedicam-se a uma pesquisa para produzir diagnóstico mais específico dos infectados pelo tripanossoma
Um teste sorológico para doença de Chagas está sendo desenvolvido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz de Pernambuco, em parceria com o Instituto Carlos Chagas (PR) e Bio-Manguinhos (RJ), também da Fiocruz. “A proposta é criar um produto com maior variedade de antígenos, aumentando o espectro de detecção”, explica a bióloga Yara Gomes, coordenadora do Serviço de Referência em Doença de Chagas do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, no Recife. Um teste com valores elevados de sensibilidade e especificidade diminuiria a possibilidade de resultados falsos negativos ou positivos, dando também maior rapidez ao processo de triagem.
A evolução dos diagnósticos da doença de Chagas foi um dos temas discutidos nas últimas quinta e sexta-feira, no Recife, durante a 7ª jornada dedicada à doença, evento que marcou os 25 anos de existência do Ambulatório de Chagas e Insuficiência Cardíaca de Pernambuco, criado no Hospital Oswaldo Cruz e que hoje funciona vinculado ao Pronto-Socorro Cardiológico de Pernambuco (Procape).
Os pesquisadores da Fiocruz esperam ter em seis anos um teste sorológico (que busca anticorpos no sangue humano) mais seguro. Será avaliado quanto ao seu uso para testagem em hemocentros, na seleção de tecidos e órgãos humanos destinados a transplante e no diagnóstico laboratorial de pacientes com sinais da infecção causada pelo Trypanosoma cruzi, parasita transmitido pelo inseto barbeiro. Ao trabalhar com antígenos mais específicos para Chagas, evita-se a ocorrência de reações cruzadas, ou seja, a detecção também indesejada de anticorpos compatíveis para outras enfermidades, o que pode confundir o diagnóstico inicial levando a um resultado errôneo.
Os testes disponíveis no mercado, como o método Elisa, já são produzidos com mais de um antígeno, no entanto, em muitas situações, não são capazes de detectar a infecção em diferentes áreas endêmicas. Após o exame inicial positivo é realizado um segundo, de outra metodologia, que confirma ou descarta a infecção. “A busca é pelo mais perfeito”, esclarece Yara, que comanda estudos de imunologia há mais de duas décadas.
A primeira fase da pesquisa em andamento, iniciada neste semestre, deve demorar ao menos três anos. É considerada complexa, pois requer muitos testes. Para isso, os pesquisadores dos três centros estão reunindo em uma única molécula partes de proteínas de diferentes porções do parasita, formando uma molécula maior, denominada poliantígeno. A ideia é utilizar poliantígeno para pesquisar os anticorpos contra o parasita no sangue dos pacientes. “Embora as características sejam idênticas, há cepas bioquimicamente diferentes, mais virulentas”, explica a pesquisadora da Fiocruz de Pernambuco.
Selecionado o poliantígeno ideal, o trabalho será voltado à sua validação, utilizando pacientes de diferentes regiões geográficas do Brasil e da América Latina e possibilidade de implantação de teste rápido, que poderia definir o resultado em poucos minutos.
CRÔNICOS
O cardiologista Wilson Oliveira, coordenador do Ambulatório de Doença de Chagas e Insuficiência Cardíaca do Procape, referência regional do SUS, explica que a enfermidade está longe de ser erradicada, apesar da redução na transmissão ocorrida no Brasil. “Acredita-se que seja uma doença pós lusitana, pois não havia qualquer referência tupi-guarani aos barbeiros ou a esse tipo de adoecimento”, lembra Oliveira, associando o problema ao desequilíbrio ambiental causado pelo extermínio dos índios e desmatamento.
Quem não recebe tratamento na fase aguda da doença fica soropositivo para o resto da vida. A infecção pela picada do barbeiro, a mais comum no País, muitas vezes só é descoberta tardiamente, na presença de complicações no coração e intestino. “É ingenuidade pensar que não existe mais doença de Chagas por eliminarmos a transmissão por um tipo de barbeiro. Esta semana atendi um novo paciente, com 32 anos.”
Fonte: JC



