“O País não precisa de nenhum outra droga legalizada”

“Não precisamos de nenhuma outra roga legalizada”. Esse é o recado em tom e alerta da médica psiquiatra, professora filiada da Universidade Federal de São aulo (Unifesp) e presidente da Associação brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), Ana Cecília Marques. A especialista estará no Recife, na próxima sexta-feira, para um encontro onde serão discutidos temas como prevenção, consumo de drogas e família. A psiquiatra conversou com a Folha de Pernambuco sobre os desafios que o País ainda tem pela frente no combate as drogas. Ana Cecília Marques destacou que, apesar do cenário caótico, ainda acredita que o Brasil possa se “endireitar”, se houver um debate mais sério sobre a questão e mais clareza das ações governamentais sobre o tema. A especialista fez, ainda, críticas sobre as estratégias de redução de danos aplicadas e sobre a necessidade urgente que há em qualificar os profissionais que tratam dos usuários/pacientes.

A senhora acha que o Brasil esta perdendo a guerra contra as drogas? A atual situação econômica do país pode agravar o cenário?

Em minha opinião, quando um País passa por tantas crises como aquelas que vivemos, a econômica, a educacional, na saúde e, portanto, social, o uso de drogas tende sim ao aumento. O que piora o cenário é que no Brasil já estava em uma curva ascendente em relação ao consumo de todas as drogas. Mas, mesmo assim, não penso que estamos perdendo a guerra. Estamos no começo, e se pudermos “endireitar” as políticas poderemos vencer.

Está ocorrendo um debate cego sobre as drogas no País?

Penso que sim, pois não se discute os reais interesses que estão por trás do comércio de qualquer droga, os interesses econômicos. Fala-se apenas do direito individual de usar, como se o uso não afetasse o coletivo, não estivesse submetido às leis de um mercado.

A perspectiva de redução de danos com a utilização de outras substâncias psicoativas, como acontece emoutras partes do Mundo, é equivocada?

Não, não é equivocado. Vem sendo testada há muito tempo em alguns países desenvolvidos. Um dos protocolos utilizados é o uso de drogas com o mesmo perfil farmacológico da droga de abuso, para que seja possível retirar a droga primária, da dependência. Mas, commétodo avaliado para aferir a efetividade. Só temos um exemplo referendado pela ciência, em função dos primeiros resultados positivos, que é a substituição de heroína pela metadona. Hoje os resultados têm se mostrado regulares. O segundo protocolo é a substituição de seringas e agulhas utilizadas pelos usuários de drogas injetáveis para que não se contaminem com doenças infectocontagiosas, como sífilis, hepatites e aids. Nesse caso não estamos tratando a dependência, mas evita-se a complicação. Existem países que não conseguiram a efetividade esperada com esses métodos. No Brasil, a redução de danos se tornou uma panacéia, serve para tudo. Mas não é bem assim.

Acredita que falta política pública para o tema?

Estamos engatinhando. O Brasil é um país jovem, que vem vivendo suas epidemias de drogas no último século, diferente dos outros países. Precisamos desenvolver políticas próprias, incluir a cultura de cada região do País, para que funcione. Não é erro, é história. Não é uma questão para se escolher ser “contra ou a favor”. É um fenômeno humano e assim precisa ser estudado para escolher o melhor caminho, que é complexo. Não basta mudar uma lei.

Muito se fala do reflexo negativo das drogas na saúde pública e desenvolvimento social. Poderíamos dimensionálos?

Temos um relatório mundial, realizado pela OMS a cada quatro anos, e enviado para todos os países. Ele mostra quais são os fatores que mais incapacitam a população e que causam mortalidade precoce, no caso do Brasil o primeiro é o álcool e o terceiro o tabaco. Significa que as duas drogas são as causas que pesam mais na determinação de doenças graves, como cardiovasculares, respiratórias, gastrointestinais e cânceres, que outros problemas. Tais políticas deveriam ser prioridades de qualquer governo. Temos alguns estudos econométricos que mostram o custo do tabagismo no Brasil: R$ 21 bilhões ao ano!

Outro tema bem polêmico é no trato com os usuários. Como tratá-los?

Não são mocinhos. Muito menos bandidos. Há muito tempo que lutamos contra o estigma. Contra o preconceito, e não contra usuário. Mesmo quando o modelo de uso de drogas era o moral, o usuário não era bandido, ele era considerado uma vítima. Penso que ainda estamos “paralizados” nessa visão. Precisamos avançar. Nem o usuário dependente sabe que tem direito ao tratamento de uma doença que se desenvolve no cérebro, nem a população sabe que tem direito de não usar drogas. Isso é muito sério.

O crack virou foco das discussões e campanhas nacionais. Quais os motivos que levaramo consumo dessa droga a crescer no País?

Há vários aspectos. Primeiro, a cocaína fumada é altamente dependógena. Assim como o tabaco e a heroína, pode levar a dependência em meses. E depois vem todo o resto, que são as consequências, desde o abandono da própria vida social, familiar, até as mais graves doenças, entre elas a aids. Além do mais é uma droga suja, tóxica, adoece rápido. E mais: não é a única que o indivíduo utiliza, estamos falando de um usuário bastante vulnerável, poliusuário. É uma carreira que já começou bem antes. Parece-me que ficar olhando para o crack, com tantas limitações, não vai resolver o problema. Vai nos deixar mais cegos sobre quais caminhos temos que escolher, pois o problema no Brasil são as drogas lícitas para adultos!

“O país não precisa de nenhuma outra droga legalizada”. A que se referiu?

As drogas psicotrópicas que alguns querem liberar não são drogas simples. Não estamos falando de medicamentos. Mas sim de substâncias que alteram a capacidade de qualquer um de nós decidir, discernir, resolver problemas e de dizer não! Temos drogas legalizadas que não estão suficientemente reguladas. Os medicamentos que podem ser originários de drogas psicotrópicas devem ser profundamente estudados. E, se liberados para tratamento, regulados rigidamente, de forma a proteger quem os utilizará e os demais também.

Várias cidades têm investido tem estratégias contra o crack, a exemplo de São Paulo. Há algum case de sucesso?

O Brasil não tem um case do crack. Não que eu conheça. Estamos engatinhando, infelizmente. Em São Paulo há muitas ações, sim, mas não é um case ainda. A cidade tem o programa do Recomeço, que é um programa de tratamento, e o projeto Braços Abertos, onde é ofertada a reinserção dos usuários no trabalho, e em moradias. Ma são programas que estão no início. E só o acompanhamento no longo prazo, em torno de 12 meses, produzir algum resultado confiável.

Com relação à internação com pulsória. A senhora acredit que essa medida é válida?

Acredito que serve par poucos casos, que dependo da utilização de critérios claros, como foi utilizada e São Paulo. Para qualquer tip de internação tem que ter critérios. Ninguém sai internan do qualquer pessoa. Na inter nação voluntária, o pacient aceita a recomendação do médico e segue para o loca onde desenvolverá seu tratamento. Na involuntária, o mé dico e família, diante de risc de morte para ele ou para outrem, recomenda a inter nação. A compulsória é de terminada pelo juiz, quand algum crime foi cometido e usuário precisa de tratamen to. Por exemplo, crianças e situação de rua sem qualquer cuidado, ou adultos co transtornos mentais na mesma situação. De mil internações que foram recomendadas no ano de 2014 menos de 1% foi compulsória A maioria foi voluntária.

O que falar das comunidade terapêuticas, já que a maioria emprega a religiosidade com tratamento?

Não é tratamento. A comu nidade terapêutica faz rein serção social. O indivíduo s trata nos serviços de saúde.

Como avançar na capacitaçã dos profissionais que lida com a dependência?

Não tem outra saída. Temos que habilitar os profissionais O governo federal deve dire cionar os recursos do crac para esse fim. Ninguém sabia e ainda sabemos pouco sobr o tratamento da dependência de crack. É preciso capacita todos, as emergências, Samu, os agentes comunitá rios de saúde, o médico d PSF e, principalmente, o Caps. Mas o que estamos as sistindo é CAPS semmédicos como se a equipe multidisci plinar não fosse important para manejar tal problema Como podemos tratar um doença tão grave, maligna como é a dependência, se essa articulação dos profis sionais e da sociedade?

Fonte: Folha de Pernambuco

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