A receita do dr. Petrúcio

Seria a medicina uma arte? O dicionário diz que sim, arte e ciência ao mesmo tempo. Renato Lucena, 20 anos, experimenta esses dois sentidos da palavra. No quinto período da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade de Pernambuco (UPE), na centésima turma do segundo curso médico do Estado, ele dedica a maior parte do dia ao conteúdo técnico e filosófico. Ocupa, no entanto, o horário do almoço duas vezes na semana para arrancar sorrisos e abraços nas enfermarias do Centro de Oncologia do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc) e do Pronto-Socorro Cardiológico de Pernambuco (Procape).

Junta-se aos colegas Camila Aguiar e Oswaldo Carlos para cuidar dos pacientes com outro tom. Seu rosto expressivo, já emoldurado em cabelos cacheados, ganha pintura, um nariz vermelho e pronto! Lá vai o futuro médico brincando e aprimorando o olhar do cuidado. “Eu ainda não sei quem eu vou ser amanhã. Mas tenho ótimos modelos ao longo da minha formação. Como aquele médico que pergunta autenticamente ao seu paciente como ele está e não simplesmente o que ele está fazendo ali”, diz, refletindo uma geração em contato com uma nova forma de aprender medicina, que se opõe à frieza tão questionada pelos pacientes.

A palhaçoterapia é apenas uma das vertentes artísticas que rodeiam os cursos médicos da atualidade. Na UPE, reforça o envolvimento com a música, contação de histórias, teatro, grafitagem, experimentados na disciplina de arteterapia, processo terapêutico para liberar os sentimentos e ajudar na prevenção, tratamento e alívio da sensação de adoecimento. Na UFPE, integra o Projeto Mais, criado pela professora de patologia Lenieè Maia. Quem conhece Renato não consegue enxergá-lo por trás de uma mesa, olhando para o computador e fazendo perguntas de praxe ao doente tenso. Faz cara de palhaço, ouve e abraça nas enfermarias e corredores dos dois hospitais-escola que frequenta. “Eu vim de uma família que sempre me ensinou a expressar o que sinto: chorar quando tem vontade, rir quando é engraçado e abraçar quando é preciso. Como palhaço no hospital, percebo um toque diferente com o paciente, encontro que não poderia conseguir de outra maneira. Ele nos vê como fonte de escapismos e há momentos em que não temos o que fazer, só mostrar que estamos ali de alguma maneira. Quando a gente abraça, o peso que carregamos é dividido por dois, as coisas são mais suportáveis, amenas. Nossos problemas continuam lá, mas o fato de saber que não estamos sozinhos já melhora tudo”, defende.

Fonte: Jornal do Commercio

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