Muitas das famílias que têm células de cordões umbilicais armazenadas no Instituto de Hematologia do Nordeste (Ihene), no Recife, estão frustradas e raivosas com a provável perda dos 1.843 exemplares do material, condicionado em temperaturas irregulares e, por isso, inutilizado por determinação da Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária (Apevisa) e do Ministério Público de Pernambuco (MPPE). Nesta quinta-feira (3/3), elas lotaram durante todo o dia a sede do Ihene, na Boa Vista, área central da capital, em busca de explicações e soluções. Saíram insatisfeitas com o atendimento, prometendo formar uma associação para agregar forças e acionar judicialmente o instituto.
“Eles não deram muitas informações. Fomos recebidos por uma advogada, que parece ter sido contratada recentemente devido ao episódio, que nos disse apenas que o Instituto irá ressarcir as famílias financeiramente de acordo com a ordem cronológica de adesão e seguindo as regras do contrato. Nada mais. Quando questionamos o que teria acontecido para as temperaturas terem sido alteradas, ela disse não estar autorizada a responder”, afirmou a médica Renata Pradines, que tem material de dois filhos armazenados no banco.
Angustiados com a perda do material que poderia vir a salvar a vida de seus filhos, alguns pais cogitaram a possibilidade de pedir ao Ihene que faça uma análise individual das células para ter certeza de que todo o material armazenado no Banco de Cordão Umbilical e Placentário do instituto foi, de fato, comprometido. Mas o medo de confiar na análise é grande. “Eu não sei se utilizaria, confesso. O risco é muito grande, já que, segundo a Apevisa, o armazenamento alcançou temperaturas positivas de até 30 graus Celsius, quando deveria ser de – 150 graus Celsius”, argumentou o representante comercial Paulo Vieira, que reside em São Paulo e, por coincidência, veio ao Recife para renovar o contrato com o Ihene.
Às famílias, o instituto teria confirmado que as 1.843 células de cordões umbilicais seriam descartadas. Mas o Ihene não falou com os jornalistas, mais uma vez. Prometeu dar uma entrevista coletiva e, depois de deixar a imprensa esperando por quase três horas, desistiu da conversa e soltou uma nota de duas linhas informando apenas que iria cumprir rigorosamente todas as determinações do MPPE.
O órgão e a Apevisa promoveram a interdição e recomendaram o descarte das quase duas mil células depois de constatar que teriam sido armazenadas em tanque de nitrogênio líquido em temperatura acima de –150 graus Celsius, no período de 13 de maio a 23 de outubro de 2015, o que é considerado irregular. O problema mais grave teria sido a descoberta do armazenamento com temperaturas positivas de até 30 graus Celsius nos dias 10 e 23 de outubro do ano passado. O caso foi apurado depois de uma denúncia feita por uma ex-funcionária do Ihene, que teria alertado a direção do instituto sobre a redução da quantidade de nitrogênio líquido no armazenamento do material.
CRIME
Enquanto isso, a Delegacia de Repressão aos Crimes contra o Consumidor abriu um inquérito para investigar o caso. Segundo o delegado Roberto Wanderley, há fortes indícios de crime de ordem econômica na relação de consumo. “Diversas famílias nos procuraram e já oficializamos as autoridades sanitárias para explicarem o que houve. Posteriormente, iremos ouvir o Ihene. Temos 30 dias para concluir o inquérito”, explicou o delegado. Se condenado, o instituto poderá pegar uma pena de um a cinco anos de detenção.
Fonte: Jornal do Commercio



