O número de mulheres atendidas após aborto nos hospitais e maternidades é cem vezes maior do que os procedimentos realizados dentro a lei. Os dados são do Sistema Único de Saúde (SUS) e oram levantados pela ONG os Fatos, que comparou os registros de curetagens (inclui abortamentos espontâneos e provocados) realizadas a rede pública aos de interrupções na gravidez com autorização legal. Em 2014, por exemplo, foram 187 mil contra ,6 mil, respectivamente. Nos formulários do SUS não á a especificação para diferenciar a causa do abortamento – se a curetagem está sendo eita por aborto espontâneo u provocado. A Folha de Pernambuco ouviu médicos sobre s dados. E para eles, a disparidade dos números entre os ois procedimentos constata o vazio na lei e a falta de políticas e contracepção, levando a necessidade de rediscutir a criminalização de quem interromper a gestação por estar à margem do que é legal.
“O levantamento atesta que sistema e a legislação não contemplam as mulheres que ão desejam engravidar. E o maior problema é para as mulher pobres, que não têm aceso a fazer um aborto seguro”, ressalta o obstetra Olímpio Moraes, diretor do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), no Recife. Moraes destaca que “ninuém é a favor do aborto, mas im contra a lei que criminalia a mulher”. Para ele, a legisação atual do Brasil sobre o ema é machista e patriarcal. o Brasil, o abortamento não é rime em casos de estupro, risco de morte para a mãe e anencefalia – quando o feto não tem cérebro. Requisitos, avalia o obstetra, que “empurram” as mulheres para situações que colocama saúde em risco, como clínicas clandestinas e remédios ilegais. “Um risco à saúde feminina”, alerta. Coordenador do Serviço de Apoio à Mulher Wilma Lessa, serviço de abortamento legal que funciona dentro do Hospital Agamenon Magalhães, no Recife, Arlon Silveira chama atenção para o fato de que apenas cerca de 10% das mulheres sofrem aborto espontâneo na primeira gestação – são casos relatados na literatura médica e incluem níveis de hormônios inadequados da mãe, malformações do útero e do feto, por exemplo. Para Silveira, há muitas mulheres que não dizem o motivo real do aborto porque sabem que é crime. “Mesmo como sigilomédico elas ficam retraídas. Às vezes, conseguimos detectar pelo contexto, pela história e pelos exames, quando encontramos, por exemplo, restos de comprimidos na vagina. Mas não estamos aqui para demonizar ninguém, mas sim para oferecer assistência”, afirma o médico.
RISCOS
O aborto clandestino, alerta o ginecologista e obstetra Aurélio Costa, pode levar a mulher a óbito. Também pode ocasionar perda do útero e esterilidade. No cenário atual, quem engravida e não está acobertada por lei para fazer o abortamento recorre a duas alternativas – remédios, como o Cytotec, ou clínicas clandestinas. “O risco é muito elevado. Além de morte, a mulher pode ter uma infecção generalizada, hemorragia e perder o útero por perfuração”, alerta Costa. Ele ressalta que as clínicas clandestinas, normalmente, são compostas por curiosos no assunto que desviam material de hospitais e utilizam ferramentas cortantes sem a higiene devida.
Abortivos fáceis na web
Embora ilegal, conseguir informações sobre métodos abortivos e o procedimento para usá-los não requer esforço. Na internet, centenas de páginas dão o “passo a passo”. Oferecem abortivos e os relacionam como eficazes e baratos. A Folha de Pernambuco obteve retorno de alguns. Em um deles, por meio do sitel www.abortonatural. webcindario.com, alguém ofereceu duas receitas de chás, com “eficácia de 99%”. As receitas custam R$ 30 e as ervas para fazê-las “podem ser encontradas em qualquer casa especializada”. “Os chás inibbem os hormônios ovarianos, impedem os embriões de se manterem fixados ao útero. Mas é preciso saber quais funcionam e a dose”, informou. Também por email veio a resposta de um endereço na internet de uma clínica abortiva. Alguém identificada como Sabrina Nóbrega respondeu que o espaço foi denunciado e fechado. Mas sugeriu um contato de um terceiro que vende Cytotec para “não deixar você na mão”. Não adiantou o valor. Descreveu as vantagens e como usá-lo para “ter um aborto bem-sucedido”. Proibido no Brasil desde 2005, após a descoberta d sua ação abortiva, o Cytote era originalmente utilizado para o tratamento de úlceras Mesmo ilegal, na rede h quem ofereça a embalagem com quatro comprimidos por R$ 500. Às vezes nem é preciso re correr a web. Uma administradora recifense de 36 ano estava com duas semanas d gravidez quando comprou medicação em uma farmácia indicada por uma amiga Tomou seguindo a orientação do próprio vendedor. Ao começar a perder sangue e sentir cólicas, procuro ajuda médica e foi submeti da a uma curetagem. “Foi um risco. Mas, há cinco anos eu não estava preparada para ser mãe e tive que arrisca minha vida”.
Fonte: Folha de Pernambuco



