João chora. Chora sem parar, molhado de suor, mesmo usando apenas uma fraldinha descartável. Parece inchado. Chora aos berros na varanda da casa de quatro cômodos onde vive com a mãe, o pai e cinco irmãos, na Praia de Pau Amarelo, em Paulista, na Região Metropolitana de Recife. O calor é escaldante sob as telhas de amianto. Não dá para saber se o choro é por calor, fome, fralda suja ou dor. Já sabem, porém, como aquietá-lo. É só dar o remédio: a dose de Rivotril.
Ele tem microcefalia causada pelo zika, vírus transmitido pelo Aedes aegypti, o mesmo vetor da dengue e da chikungunya. Os primeiros casos da zika foram oficialmente notificados há um ano em abril de 2015, na Bahia. Segundo o Ministério da Saúde, 1.113 casos de malformação foram confirmados – 189 têm relação com o zika em todo o país.
Pernambuco, o estado com o maior índice de crianças com a malformação genética – que reduz o perímetro cefálico e compromete o desenvolvimento cognitivo – tem 312 casos confirmados. Na semana passada, o Centro de Controle de Doenças (CDC) dos EUA afirmou que “não restam dúvidas” da ligação entre a doença e o vírus.
Em crianças como João, de sete meses, quase tudo é um enigma para a ciência. Imagine para os pais. O choro aflitivo é só um dos desafios. O pai, Fabio da Silva Araújo, de 34 anos, nem sabe explicar como vai criar o filho. Está sem carteira assinada há dois anos e vive de bicos. A mãe, Neide Maria Ferreira da Silva, de 41, diz que não entende muito bem o que é microcefalia, mas já sabe que a sua experiência não vale muito: João é o 12º filho. É irmão gêmeo de Ana, que não tem a malformação.
João chora no colo de Neide. A vizinha Valéria Gomes Ribeiro, de 45 anos, pega o menino. Vira de frente. De lado. Balança. João vai sossegando. Agora, porém, ele olha para o vazio. Parece ausente. Está duro. Costas rígidas. Perninhas rígidas. Bracinhos retraídos. “Ele é assim. Nervoso. Meio durinho. É da doença. Mas o remédio acalma”, explica Valéria.
Dose certa
Rivotril e Neuleptil, ambos tarja preta, são apenas alguns dos medicamentos usados para controle de ansiedade que foram adotados nos primeiros meses de vida de bebês para aplacar o choro.
“São crianças com alterações neurológicas, e quem tem esse tipo de alteração costuma ser mais irritado”, diz Danielle Cruz, coordenadora do Laboratório de Microcefalia do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), no Recife. “Alguns são calmos, mas outros a gente só acalma com remédios.” Rivotril ganhou espaço porque tem a versão em gotas. “A gente precisa ir tateando até achar a quantidade certa.” (Agência Estado)
Criança tem mais de 50 convulsões por dia
Por ser uma anomalia nova, a microcefalia causada por zika não tem tratamento testado, aprovado e prescrito. Está sendo desenvolvido à medida que as crianças crescem e as sequelas surgem. Especialistas reconhecem que não têm como prever o amanhã. “É tudo novo”, diz a neuropediatra Ana Van Der Linden, do Imip.
“Vivo entre a cruz e a espada”, diz a dona de casa Gabriela Ananias, de 31 anos. O filho Lucas, de seis meses, há três iniciou o tratamento com o antiepilético Sabril. Sem condições de comprar o remédio, que não está na rede pública e custa entre R$ 300 e R$ 350, ela tem recorrido à ajuda de amigos e parentes. “Eu não queria dar o remédio porque é muito forte, mas não tive escolha. Ele estava tendo mais de 50 convulsões por dia.” O bebê já havia sido medicado com Gardenal, mas não respondeu bem.
Aos oito meses, Marcela também teve de tratar convulsões. Acompanhada pela equipe do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, ela toma Trileptal. A mãe, a diarista Maria do Carmo da Silva, de 32 anos, não se conforma. “Minha filha era agitada, mas comia bem e eu conseguia fazer nela os exercícios que a fisioterapeuta ensinou”, diz. “Desde que começou a tomar o remédio, só dorme e vomita muito, mas, se eu não dou, me arrependo logo, porque aí os tremores e o choro ficam fortes.” (AE)
Raio x da microcefalia
Brasil
1.113 casos confirmados em 416 municípios de 22 unidades da federação
3.836 casos permanecem em investigação
2.066 foram descartados
7.015 casos suspeitos notificados desde o início das investigações
235 óbitos suspeitos de microcefalia e/ou alteração do sistema nervoso central após o parto ou durante a gestação (abortamento ou natimorto)
50 óbitos confirmados para microcefalia e/ou alteração do sistema nervoso central
155 óbitos em investigação
Pernambuco
312 casos confirmados
146 casos de microcefalia relacionados ao vírus zika
por detecção laboratorial
1.849 casos notificados em 135 municípios
320 casos notificados no Recife
116 casos em Jaboatão
72 em Caruaru
53 em Olinda
52 em Garanhuns
Fonte: Diario de Pernambuco



