A realidade e as propostas

Segundo lugar na lista de preocupações do recifense (só perde para a insegurança), a saúde pública é um dos temas mais presentes no discurso dos candidatos a prefeito do Recife. E não podia ser diferente. Apesar da expansão da rede nas duas últimas décadas, apenas 60% da população tem médico de família e enfermeiro perto de casa, quem depende da rede municipal espera até mais de um ano por consulta especializada, remédios nem sempre estão disponíveis e novas demandas, como zika, a dependência do crack e acidentes, convivem com eternos problemas, a exemplo da tuberculose e da hanseníase.

Em 20 anos, a mortalidade infantil caiu quase dois terços, saindo de 27 mortes para 10,7 em cada grupo de mil nascidos vivos. Mas o falecimento de mulheres na gravidez, parto e pós nascimento do bebê voltou a crescer. Levantamento do Comitê Estadual de Estudos da Mortalidade Materna, apresentando no último dia 12 em audiência pública do Ministério Público Federal, aponta que em 2015 foram 21 mortes maternas, 42% delas evitáveis. Já em 2016 há registro de 18 até o momento.

Saúde é o primeiro de sete temas que o JC debate de hoje a domingo com os oito candidatos majoritários. O primeiro desafio é expandir a rede. Na década passada a lógica era crescer, municipalizando também serviços estaduais. Mais recentemente, adotou-se a construção de novas estruturas sob gestão terceirizada. Cada prefeiturável enviou sua proposta, reproduzida na íntegra no quadro abaixo. Uns pretendem utilizar a estrutura já existente, ajustando a forma de funcionamento, revendo o modelo de gestão ou empregando novas tecnologias para fazer a fila andar. A reabertura do Hospital Infantil Cravo Gama, em Afogados, mais postos e reposição de pessoal também aparecem nas promessas. Mas nenhuma delas faz menção às mais de 60 sugestões da 12ª Conferência Municipal de Saúde, realizada no ano passado e que reuniu comunidades, gestores e trabalhadores da saúde municipal. Essas recomendações da sociedade tratam de uma cobertura de 100% da atenção básica (postos em todos os locais), ampliação dos Núcleos de Apoio ao Saúde da Família e implantação de centros de convivência em saúde mental, assim como uma maior participação popular no controle dos serviços. Pela Constituição Federal, a prefeitura é obrigada a investir 15% do seu orçamento em saúde.

“Achar um cirurgião vascular no Recife é como buscar ouro”, define a dona de casa Rosângela Alves, moradora da Zona Norte da cidade e que na última sexta-feira acompanhava a sogra, à tarde, em atendimento na Policlínica Amaury Coutinho, na Campina do Barreto. “Ela aguardava, desde a manhã, vaga em hospital. Queriam fazer a transferência para Vitória de Santo Antão (a 50 quilômetros), mas eu não permiti. É importante garantir que o morador seja atendido na sua cidade e aqui há grandes hospitais”, comentou. Suzana Oliveira, que tem posto de saúde perto de casa, também se queixa da dificuldade de acesso a dermatologista e diz que, nas policlínicas, “o atendimento precisa ser mais acolhedor”. A aposentada Maria Lúcia Vieira, 63, com problema neurológico, esperava há dois anos por fisioterapia, só iniciada recentemente na UPA de Especialidades inaugurada no Arruda, um dos novos equipamentos da rede municipal que funciona em parceria com o Estado, sob administração de organização social. “Graças a Deus estou fazendo meu tratamento”, comenta. Desloca-se duas vezes por semana do Vasco da Gama para cumprir as sessões. Como melhorar a saúde? “Se eu conseguisse a consulta médica para a minha mãe, em casa. Ela tem 82 anos e sofreu um AVC”.

Para o diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, médico Rodrigo Bandeira de Lima, o atendimento especializado “precisa ser planejado em função das necessidades identificadas pela rede básica, avaliando, por exemplo, o número de encaminhamentos à cardiologia e programando a partir daí a oferta da especialidade”. Hoje ocorre o inverso. “A rede especializada está posta, e as USFs (Unidades de Saúde da Família) se adaptam ao que tem”. Como médico de família do Recife nas últimas quatro gestões, observa avanços e equívocos em todas as fases. Defende educação permanente para os profissionais e maior participação deles na definição de políticas, assim como reforço das equipes de Saúde da Família, atualmente sobrecarregadas. Também seria necessário rediscutir as Upinhas, “sob a lógica técnica e não de marketing”. O nome é alvo de críticas por distorcer a proposta de Unidade de Saúde da Família. O Recife tem 144 unidades básicas e de USF, dez Upinhas, 150 leitos no Hospital da Mulher – nova unidade terceirizada -, outros 161 em três maternidades e mais 50 no Hospital Helena Moura.

Fonte: Jornal do Commercio

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