Passado o Outubro rosa, chegará o Novembro azul, com monumentos e prédios públicos tingidos por luzes dessas cores, que simbolizam as campanhas de prevenção do câncer de mama e de próstata. A iniciativa é louvável. É preciso manter a população constantemente informada sobre a doença que, se diagnosticada a tempo, poderá ser vencida com tratamentos adequados. Mas como atender aos objetivos das ações, quando a rede pública de saúde, na maioria das unidades da Federação, não dá as respostas esperadas pela sociedade. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que neste ano serão identificados 57.960 novos casos de câncer de mama, e 14.388 mortes pela doença, sendo 181 homens, e 14.206 mulheres. No universo masculino, o órgão prevê que serão diagnosticados 61.200 casos de câncer de próstata, que poderá levar a óbito quase 14 mil indivíduos.
As campanhas movimentam organizações não-governamentais e entidades de classe. Elas promovem mutirões para identificar a doença. Orientam os pacientes quanto aos procedimentos adequados. Muitas encaminham os doentes para hospitais e centros de tratamento da rede pública. Aí começa o calvário de quem sabe que, sem o atendimento correto, seus dias de vida estarão contados. Os pacientes, sobretudo os mais despossuídos, esbarram em obstáculos, na maioria das vezes, intransponíveis. Não têm acesso a exames periódicos, a medicamentos e às terapias indicadas para o caso. E isso não ocorre só em relação ao câncer. As decificências do setor afetam pacientes com outras moléstias com elevado potencial de letalidade.
A partir da Constituição de 1988, com a instituição do Sistema Único de Saúde, o Brasil se colocou como modelo inspirador para nações do Primeiro Mundo. Os sucessivos governos, em breves momentos e por meio de ações pontuais, conseguiram fazer com que o SUS cumprisse o papel, como pensado durante a construção do sistema. Mas a maioria das administrações foi ineficiente e tornou crônica a crise do setor. Embora, o orçamento federal contemple, a cada ano, maior volume de recursos financeiros, o dinheiro se perde entre os cofres da União e as unidades de saúde.
Os gargalos que impedem serviços eficientes na saúde precisam ser removidos. Hoje, o poder público está preocupado em alinhar as contas públicas à realidade do país, que enfrenta uma das mais severas crises da história. A proposta de correção na economia exclui, segundo o governo federal, a saúde e a educação — setores para os quais não faltarão dinheiro. Porém, mais do que isso, essa garantia somente será real quando a gestão financeira implicar melhorias no atendimento em todos os níveis, desde o básico até os de alta complexidade. A má assistência, falhas na prevenção, o agravamento das doenças, sem contar com a péssima gestão dos responsáveis nas unidades da Federação, são tão letais quanto o próprio câncer.
Fonte: Diario de Pernambuco



