A crise hospitalar

Um dos principais motes do governo Eduardo Campos é o da modernidade da gestão pública. Com ele, elegeu o novo prefeito do Recife, Geraldo Júlio, que simboliza o modelo de eficiência apregoado pelo padrinho político em discursos e propaganda. A crise nos hospitais vinculados à Universidade de Pernambuco (UPE), no entanto, mostra outra realidade e reclama do governo do Estado que assuma a responsabilidade de resolver urgentemente um problema, que é gravíssimo. A crise afeta a população mais carente, os médicos, enfermeiros e demais servidores do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), Pronto-Socorro Cardiológico de Pernambuco (Procape) e Centro de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam). Compromete ainda o ensino de futuros profissionais de saúde – a UPE é responsável atualmente pela formação de 1.500 alunos.

O desmantelo nos hospitais universitários – que atinge também o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco – é como um câncer em metástase: começa pela falta de recursos e se espalha pela gestão, atinge o pessoal e a infraestrutura. Num Estado carente de leitos, é um absurdo que o Huoc tenha fechado 112 dos seus 407 leitos por falta de profissionais e decadência da estrutura física, enquanto espera por um socorro financeiro.

Manifesto entregue por estudantes da UPE ao governo, ao Ministério Público e à população denunciando a crise no Huoc mostra que o Estado usa de duas medidas na gestão. O diretor do Oswaldo Cruz, médico Raílson Bezerra, reclama que o governo não repassa recursos para manutenção dos hospitais universitários, que dependem exclusivamente de verbas do SUS. Recentemente construídos e equipados, os hospitais administrados pelo Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip) recebem três vezes mais em recursos por paciente. Os salários pagos aos médicos a cada plantão chegam a dobrar em relação aos vinculados à UPE e à Secretaria de Saúde. Destina-se a um estudante universitário quase a metade do que se gasta com um aluno do ensino fundamental.

O governo reconhece que o modelo de gestão é ultrapassado, a ponto de o secretário Marcelino Granja, de Ciência e Tecnologia, anunciar a intenção de transformar as três unidades da UPE em um complexo hospitalar universitário. Além disso, promete contratar 500 profissionais – 95 médicos por concurso e 265 não médicos por seleção simplificada para o Huoc. E haverá, ainda, seleção para 87 vagas no Procape.

Não se pode ignorar a dificuldade de o governo contratar médicos – até os hospitais administrados pelo Imip fecham plantões por dificuldade de completar suas equipes. Tal carência deve-se à política educativa do País, que restringiu até bem pouco tempo as vagas e os cursos de medicina. Profissionais dos mais valorizados no mercado, os médicos escolhem onde bem querem trabalhar. Muitos dos profissionais aprovados em concurso desvinculam-se do Estado pouco tempo depois de contratados e optam pela medicina privada por causa das precárias condições de trabalho e da má remuneração.

Fonte: JC

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