A metodologia da eutanásia

Toda ação, particularmente médica, que atente contra a vida humana, será no mínimo discutível, senão impertinente ou criminosa.

A primeira ponderação a se fazer é a dissonância entre a determinação legal [que exige o parecer de um jurista, um especialista em ética e um médico] e a prática institucionalizada da eutanásia, que se efetiva na Holanda. Idosos de lá buscam assistência médico-hospitalar na cidade de alemã de Bocholt, temendo serem mortos contra a própria vontade. A referida prática era costumeira de cientistas nazistas, que a praticaram em larga escala contra deficientes físicos, inválidos e doentes mentais, bem como a impingiu contra toda uma gama de etnia que não fosse ariana – mormente de judeus e negros.

A proposição do ponto de vista teórico-acadêmico não me estarrece, senão o relatório da Universidade de Göttingen, ao prescrever que 41% dos sete mil casos de eutanásia levados a efeito na Holanda aconteceram a pedido da própria família da vítima. Argumenta-se o incômodo que os idosos causam aos seus interesses pessoais da família. Numeroso contingente de idosos holandeses, pois, sofre de gravíssima ameaça de morte, semelhante ao que se opera na assistência médica nacional, que advoga um conjunto amoral, inspirado num liberalismo dantesco e de estúpido viés  pseudoassistencialista. É que, na maioria das vezes, quem atende não são os médicos, nem as enfermeiras, nem as suas auxiliares, sequer os maqueiros; e sim, os vigilantes, cuja atuação à porta dos hospitais resume-se na sumária expulsão da clientela pobre e, muitas vezes, gravemente enferma. Percebe-se irônica analogia entre a medicina pública holandesa e a brasileira. Lá, ao menos, a eutanásia se pratica sob um rigoroso controle químico e instrumental; enquanto aqui se efetiva segundo a metodologia da negligência e do abandono.

Até quando as pessoas da periferia suportarão tamanha discriminação socioeconômica, não se tem previsão estatística, mas a previsão de caos, de efervescência revolucionária, que se disfarça na pureza e ingenuidade das iniciantes manifestações públicas, que já se conduzem nos grandes centros urbanos do país. Esperam-se urgentíssimas soluções político-administrativas das autoridades constituídas.

Do contrário, cedo ou tarde, todos, na realidade, estaremos ameaçados. Pondere-se que, segundo Picasso, sempre surrealista, a morte não seja a maior perda da vida, mas o que se perde dentro de si, enquanto se vive.

Fonte: Diario de Pernambuco

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