medo de ter contato com bactérias achando que todas elas são inimigas? Eis que essa maneira de pensar está completamente equivocada. A vida do ser humano depende das bactérias “amigas”,muitas delas aliás. Elas nos são essenciais. Caso fossem eliminadas do organismo, a nossa sobrevivência seria muito curta. Morreríamos em pouco tempo, acometidos por infecções causadas pelos maus germes, vírus e bactérias. Este é um dos principais papéis das milhões de bactérias que vivem nos nossos tecidos: nos defender. E como essas bactérias “amigas” são adquiridas? Mesmo sendo o útero materno um ambiente estéril, durante o parto normal, entramos em contato com a flora ali existente. Posteriormente, elas nos são incorporadas pelo contato comas pessoas, ambientes e alimentos. O número das que vivem em nosso organismo é impressionante: uma pessoa adulta tem 300 trilhões delas. Várias vezes mais que a quantidade de nossas células. Para cada célula, são mais de dez bactérias. O intestino é o órgão que possui a maior população bacteriana, cerca de 100 trilhões delas. Em segundo lugar está a pele, com 10 bilhões. Elas também estão em grande quantidade em vários outros órgãos, como nariz, boca, garganta, aparelho geniturinário, etc. Toda essa quantidade, por nós hospedada, muito provavelmente têm muitas funções. No entanto, nosso conhecimento atual sobre o tema é ainda muito limitado. A maioria das pesquisas até hoje realizadas foi sobre a flora bacteriana intestinal. E descobertas interessantes já ocorreram. Desde 2005, sabe-se que os camundongos obesos (ob-ob) têm uma população de bactérias no intestino, diferente dos seus semelhantes de peso normal. Nos animais obesos, existe uma predominância das bactérias tipo Firmucutes sobre as do tipo Bacteriodetes. Nos outros camundongos semelhantes, mas de peso normal, o segundo tipo de bactérias é muito mais numeroso. Assim, as bactérias do tipo Bacteriodetes protegeriam contra a obesidade. Essas diferenças de flora também foram observadas em outros tipos de animais, obesos ou não. Porcos, bois e ratos estão entre eles. Também observou-seque, se modificando a flora intestinal dos camundongos, a tendência para o ganho de peso também era alterada. Assim, após ter a sua flora intestinal esterilizada por antibióticos, transplantou-se para os camundongos obesos a flora intestinal dos de peso normal. Esse procedimento fez com que existisse uma perda ponderal importante nos transplantados. E, no ser humano, existiria também essa diferença nas bactérias intestinais, entre os obesos e os de peso normal? Apesar de não existir uma unanimidade entre os resultados das pesquisas, a maioria delas aponta para a mesma direção. Na flora do intestino dos indivíduos obesos há uma escassez das bactérias do tipo Bacteriodetes – as protetoras contra a obesidade. E como esses seres influenciariam na dimensão pon- deral dos indivíduos? Provavelmente por vários mecanismos. As bactérias seriam mais ou menos eficientes na retirada da energia dos alimentos. Poderiam também modificar a secreção dos hormônios gastrointestinais (Ghrelina, GLP1,GLP2,PYY), que controlamo apetite e saciedade. Agiriam facilitando ou prejudicando a absorção dos alimentos pela mucosa intestinal. Muitas pesquisas ainda precisam ser realizadas para que tenhamos respostas convincentes. Caso a flora intestinal se mostre fundamental na etiologia da obesidade, poderemos vir tratá-la com antibióticos e/ou via transplante de bactérias intestinais dos indivíduos magros. Além disso, seríamos mais compreensivos com os portadores de excesso de peso. Ele é gordinho, mas é inocente. As culpadas são as suas bactérias intestinais.
Fonte: Folha de Pernambuco



