“A pessoa se acaba de dor”

ENTREVISTA ANTÔNIO BANDEIRA Infectologista que acompanhou os 12 primeiros casos da doença (ainda enigmática) na Bahia, Antônio Bandeira, 54 anos, investe em duas hipóteses (vírus ou toxina) para explicar o mistério que intriga os médicos e a população. “Tem nada a ver com o Aedes”, diz Bandeira, nesta entrevista exclusiva.

JC – Em Salvador, o senhor acompanhou os primeiros casos de mialgia aguda a esclarecer. Qual foi a sua primeira impressão ao ver os pacientes?

ANTÔNIO BANDEIRA – A gente sabia que tinha alguma coisa errada. Será que é alguma arbovirose? Será que é zika se manifestando desse jeito? Achamos estranho as elevações de CPK (sigla para a enzima creatinofosfoquinase) e os sintomas se apresentarem em quatro pessoas de uma só família ao mesmo tempo. Os pacientes fizeram exames para zika, chicungunha e dengue. Foram negativos. Pode ter certeza: tem nada a ver com o Aedes aegypti.

JC – Há quem pense que os sintomas são semelhantes ao da chicungunha.

BANDEIRA – Chicungunha é dor articular. Estes casos de mialgia não mexem com a articulação. O sintoma começa intensamente: em poucas horas, a pessoa está arrebentada de dor, mas já vai melhorando após 24 horas. E com três, quatro dias, está muito melhor.

JC – A dor muscular é mais comum do que a urina escura nesses casos?

BANDEIRA – Dos casos que acompanhamos, 60% tiveram o quadro e não tiveram urina escura. O que é mais característico mesmo é a dor muscular intensa. É como se a pessoa tivesse feito musculação ou exercício aeróbico de forma intensa em 15 segundos. Começa abruptamente com aquela dor forte no pescoço, um torcicolo enorme, uma dor forte que vem para os braços e rapidamente o indivíduo está se acabando de dores nos músculos. Há pacientes que não conseguem andar.

JC – Como se aliviam os sintomas?

BANDEIRA – A pessoa tem que se hidratar bastante para não ter lesão renal. Pode usar analgésico, mas deve evitar o uso de anti-inflamatório, que pode precipitar um problema renal. E também deve procurar uma unidade de saúde diante do quadro de dor muscular aguda iniciado de forma abrupta. É preciso ter a enzima muscular (CPK) dosada, o que é feito em qualquer Unidade de Pronto Atendimento (UPA).

JC – Alguns dos pacientes consumiram peixe de água salgada antes dos sintomas. É preciso cuidado com a ingestão do alimento?

BANDEIRA – Se (a causa) for toxina (do peixe), ela não é alterada com fritura ou cozimento. Agora nenhum outro fruto do mar está implicado nisso. Camarão, lagosta, polvo, caranguejo: nada disso tem relação com o que a gente está falando. A princípio, estamos focalizando mais no peixe.

JC – Com o Carnaval, há uma circulação maior de pessoas. Há alguma medida que possa ser adotada para prevenir casos nesse período?

BANDEIRA – Higienizar bem as mãos sempre e não levar algo (ou alimentos) à boca sem antes lavar as mãos. A gente ainda não conseguiu descartar totalmente a possibilidade de intoxicação alimentar.

Fonte: Jornal do Commercio

Compartilhe:

Deixe um comentário

Fique por dentro

Notícias relacionadas