A dor do parto está mais longa

A dona de casa Inaílda Tavares, 42 anos, moradora de Águas Compridas, em Olinda, grávida do quarto filho, precisou se deslocar ao Recife para cumprir pré-natal de alto risco e buscar a emergência, como fez semana passada, quando começou a perder líquido amniótico. Acabou parindo na triagem do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), nos Coelhos, e só seis horas depois conseguiu um leito. A transformação da Maternidade Brites de Albuquerque, na sua cidade, em serviço de alto risco, anunciada há quase dois anos e que evitaria o deslocamento, ainda é uma obra em fase inicial. Os trabalhos começaram em meados de 2014 e dificilmente ficarão prontos este ano, como chegou a ser previsto. Para piorar, a rede de assistência, que já não dava conta do serviço, nos últimos dois meses ficou mais restrita com o fechamento da maternidade do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco, e de mais duas menores, em Camaragibe e em Moreno, no Grande Recife.

Diante dos problemas, o Comitê Estadual de Mortalidade Materna, fórum com participação do movimento de mulheres e profissionais de saúde, solicitou audiência com o secretário estadual de Saúde, José Iran Costa Júnior, no cargo há pouco mais de 15 dias. Sandra Valongueiro, da coordenação do comitê, afirma que o objetivo é construir parceria para reduzir a mortalidade materna, ainda alta, alimentada pelas deficiências do sistema. São cerca de 70 mortes anuais por cada 100 mil nascidos vivos. A Secretaria Estadual de Saúde não revela quantos leitos foram fechados recentemente, mas o Conselho Regional de Medicina e o Sindicato dos Médicos informam que ao mesmo tempo em que o Hospital Regional de Vitória, na Mata Sul, ganhou uma maternidade para partos complexos e um serviço conveniado, no Recife, passou a reforçar a rede, escalas foram sendo desfalcadas em outros serviços, estaduais e municipais.

Dirigentes, médicos e enfermeiros de grandes maternidades confirmam o caos instalado nos últimos dias. “A crise é perene, a superlotação das grandes maternidades de alto risco, no Recife, passou dos 200%, algumas chegam a ter ocupação quatro vezes maior em determinados dias. As mulheres estão amontoadas. É triste a situação”, descreve, emocionada, Cláudia Beatriz, obstetra e dirigente do Sindicato dos Médicos. Ela se queixa da falta de uma política de Estado. “Os novos serviços só enxugam gelo, não existe organização da rede por território e as escalas dos hospitais regionais não estão completas nos sete dias da semana”, denuncia. “O Mãe Coruja (programa estadual) e a Rede Cegonha (federal) funcionam mais no papel”, critica.

Assim como Inaílda, que, sofrendo dores, ficou esta semana esperando atendimento num banco de madeira, na entrada da emergência do Imip, e por pouco não pariu numa cadeira, centenas lotam as triagens dos Hospitais Agamenon Magalhães, Barão de Lucena e Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam). “Há mulheres que chegam em trabalho de parto, dão à luz e não têm o direito de sequer descansar numa cama, por absoluta falta de espaço”, afirma o diretor do Cisam, Olímpio Moraes Filho. Lá, o calvário das mães também se revela em outro momento. Miquelaine Belo, 16 anos, residente em Buenos Aires, Zona da Mata, teve bebê em novembro e desde então percorre três vezes na semana 80 quilômetros para ver, no Recife, a filha prematura, internada na UTI da Maternidade da Encruzilhada. Como tem outra criança de 3 anos, fica se dividindo. “Não vejo a hora de levar minha filha pra casa.”

A curto prazo não há expectativa de reabrir totalmente a Maternidade do Hospital das Clínicas. Segundo a direção do HC, até o dia 28 devem ser ajustada a estrutura física, em atendimento ao controle de infecção hospitalar e exigências da Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária. “Após a vistoria, a expectativa é que a maternidade abra para partos de baixo risco”, informa. É que médicos da UTI Neonatal se aposentaram nesse intervalo e a recomposição do quadro, por concurso, só deve acontecer em março. Antes disso, só se o Estado ceder profissionais para o hospital federal. Estão fechados 30 leitos do alojamento conjunto, mais 16 de UTI e UCI neonatais. Quanto à Brites de Albuquerque, em Olinda, a secretária municipal de Saúde, Tereza Miranda, explica que dos R$ 8 milhões necessários à construção de quanto novos anexos, apenas R$ 1 milhão foi liberado pelo Estado. A capacidade será ampliada em quatro vezes mais. Segundo ela, cerca de 600 partos ainda são feitos por mês na cidade, no hospital conveniado Tricentenário.

Fonte: Jornal do Commercio

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