As mãos do homem cibernético

Apenas quem se viu privado de movimentos sabe como é ter que se adaptar a uma vida em que a busca por equilíbrio é um desafio. Mais do que a lembrança de ter perdido as duas mãos em um ataque de tubarão há 13 anos, o estudante de direito Charles Heitor Barbosa Pires, 34 anos, mantém viva a esperança de reviver prazeres simples, como colocar um terno. No fim de maio, ele receberá próteses capazes de movimentar todos os dedos.

O benefício foi concedido por decisão judicial contra o governo do estado, que vai arcar com o custo das mãos biônicas – R$ 654 mil – e ainda poderá ter que pagar R$ 120 mil pelo atraso no tratamento, que vem sendo concedido desde outubro de 2011. A medida, assinada pelo juiz José Marcelon Luiz e Silva, da 3ª Vara da Fazenda Pública, é considerada um avanço na inclusão das pessoas com deficiência. “O juiz garantiu que essa decisão deixa aberta a possibilidade de outras pessoas conquistarem o direito”, afirma o advogado autor da ação, Marconi Barreto Júnior.

O argumento utilizado foi o artigo 196 da Constituição Federal, que preconiza a necessidade de promoção da dignidade e da reinclusão do portador de deficiência à sociedade. O exemplo não é isolado. No final de abril, após uma ação que durou um ano, Paulo Marcos de Lima, 39, também conquistou uma prótese biônica custeada pelo estado. O membro perdido em um acidente de moto em 2004, quando ele teve o braço arrancado por um carro na PE-22, em Paulista, foi reproduzido em formato mecânico.

A diferença entre os dois casos está no custo e no avanço tecnológico. “A prótese de Paulo, fabricada na Alemanha, custou R$ 148 mil e é uma versão mais simples, que apenas abre e fecha a mão”, explica o técnico ortopédico Carlos Marques, da Bomporte, responsável pelo fornecimento de ambos os materiais. “É estranho ver meu braço de novo. Vou começar fisioterapia para explorar ao máximo os movimentos que essa prótese oferece”, afirma o carpinteiro, que mora em Abreu e Lima e não vê a hora de voltar a trabalhar como antigamente.

Assim como Paulo, Charles quer realizar desejos “suspensos”. Enquanto isso, estuda e surfa – agora em Maracaípe, Ipojuca, e não mais em Boa Viagem. Hoje, mais que mobilidade, a independência é a sensação mais esperada. “Você se adapta a fazer tudo, mas com as novas mãos vai ser bem diferente. Quero poder vestir um terno sozinho e, assim que colocar a prótese, ir a um rodízio de carnes”, conta. (Ed Wanderley)

Fonte: Diario de Pernambuco

Compartilhe:

Deixe um comentário

Fique por dentro

Notícias relacionadas