As supercrianças e seus grandes desafios

EDUCAÇÃO ESPECIAL Lei sancionada em abril deste ano não reduziu a dificuldade de incluir as pessoas com altas habilidades entre os grupos que recebem formação educacional na rede pública

Ter um filho com inteligência acima da média poderia ser motivo de orgulho para qualquer pai e mãe. A realidade, porém, é outra. Pais, professores e crianças que convivem com os desafios da educação para pessoas com altas habilidades/superdotação enfrentam a dificuldade de fazer os “nerds”, “doidinhos”, “ETs” ou “sabidinhos” se encaixarem entre os colegas na escola sem comprometer o desenvolvimento de seus talentos.

A Lei 12.796, sancionada em abril deste ano, alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1996, e incluiu esse grupo entre os que devem ter educação especial gratuita e pública, levantando a discussão sobre os fatores que ainda impedem a formação de um sistema educacional inclusivo no Brasil.

“A maior parte dos professores me tratava com despeito onde estudei. Fui muito desrespeitado, convivi com alunos esnobes. Uma vez, fui expulso da sala de aula sem ter feito nada, só por implicância da professora, algo muito constrangedor. Aí acabei me desinteressando pelas aulas de história, como uma forma de revolta”, desabafou Júlio Sá de Carvalho, 12 anos. O garoto faz parte dos 8% da população brasileira que apresentam altas habilidades/superdotação e é um exemplo de que repetir padrões é uma exigência social e o diferente nem sempre é aceito.

A idade ideal para identificação de altas habilidades é entre 7 e 8 anos de idade, mas os sinais de inteligência acima da média costumam aparecer bem antes. “Com um ano e seis meses, ele começou a identificar o nome dos DVDs que tínhamos em casa. Três meses depois, entrou na escolinha já sabendo escrever o nome e, apesar de não ter sido alfabetizado ainda, sabe e adora ler”, disse a professora Waleska Loureiro, mãe de William. Atualmente com 4 anos, o menino está no primeiro ano do ensino fundamental, série cursada normalmente aos 6 anos de idade.

Um dos mitos é que o superdotado tem alta habilidade em todas as áreas do conhecimento. Na verdade, o mais comum é a criança apresentar habilidade acima da média em um ou dois aspectos, entre o social, criativo, intelectual, acadêmico, psicomotor e o talento especial. Quando os indícios surgem antes dos 7 anos, como no caso de William, os pequenos são chamados de precoces. Há ocasiões em que o talento desaparece com o passar dos anos e a criança passa a acompanhar a média para a idade, não configurando superdotação.

Falta de informação e intolerância são apontadas com unanimidade entre pais e professores como as principais causas do preconceito vivenciado em sala de aula. “Os professores não são preparados para sequer desconfiar que determinados comportamentos podem sugerir altas habilidades, os pais não querem assumir que os filhos têm superdotação por causa dos mitos criados em torno disso e as crianças não são orientadas para respeitar e aceitar as diferenças”, declarou o técnico de informática e professor de matemática Clemir Rocha, pai de Júlio Sá de Carvalho.

Para ele, a situação na escola privada é pior que na pública. “Se o professor da escola pública tiver o desejo de se preparar, ele pode se afastar por um tempo para isso, a lei permite. Já a escola particular padroniza o comportamento. Antes de oferecer um serviço, ela oferece um produto, funciona como empresa e não está preocupada em atingir as minorias, facilitando atitudes de agressão e rejeição.”

DESINFORMAÇÃO

Como consequência da desinformação e do preconceito, não só a alta habilidade tende a deixar de se desenvolver e ser negada pelo superdotado, mas também são estimulados a rotulação, a exclusão, o bullying. Agressão, depressão e diagnóstico equivocado de transtornos de comportamento, como transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), também não são raros.

“As crianças com altas habilidades, geralmente, são inquietas, aprendem rápido, perguntam muito, não querem repetir exercícios passados pelos professores e isso não é previsto no sistema educacional autoritário e restrito. Sei de um menino que chegou a tomar ritalina, fármaco utilizado no tratamento de TDAH, sem necessidade”, completou Clemir Rocha. Remédios indicados para o aumento da concentração de crianças hiperativas podem ter efeito contrário em relação às altas habilidades, aumentando a agitação em sala de aula.

De acordo com a Secretaria de Educação do Recife, 2.167 alunos com necessidades especiais foram matriculados na rede municipal de ensino até abril de 2013. Destes, três foram declarados superdotados, o que representa 0,13% do total. Os números não batem com os do Núcleo de Atividades para Altas Habilidades/Superdotação (NAAH/S) do Recife, instituição criada em 2006 para promover inclusão, valorização das diferenças e desenvolvimento de talentos. Atualmente, 81 crianças e adolescentes de 3 a 16 anos são atendidos no NAAH/S, 51 deles estudam em escolas públicas.

Fonte: Jornal do Commercio

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