O Brasil vai olhar mais atentamente para bebês que, apesar de não terem nascido com microcefalia, têm mães que sofreram infecção pelo zika durante a gestação. O objetivo é verificar a possibilidade de o vírus desencadear complicações clínicas nessas crianças, como vem ocorrendo com as que têm a malformação. O anúncio foi feito, na segunda-feira (23), pelo ministro da Saúde, Ricardo Barros, na abertura da 69ª Assembleia Mundial da Saúde, em Genebra (Suíça). Conforme o gestor, o primeiro passo é monitorar pacientes que foram notificados, mas que, após exames, tiveram a microcefalia descartada. O quantitativo de diagnósticos do tipo (2.818) já corresponde a pouco mais de um terço das notificações (ver arte).
“Vamos acompanhar as crianças cujas mães tiveram infecção pelo zika durante a gestação, inclusive as que não têm microcefalia, para detectar o surgimento de possíveis complicações neurológicas, oculares ou auditivas”, disse Barros, acrescentando que o desafio será definir que instituições oferecerão acompanhamento.
A medida se baseia no fato de que, no caso de microcéfalos, problemas atribuídos à Síndrome Congênita do Zika têm aparecido meses após o nascimento. Conforme cientistas, ter o perímetro cefálico considerado normal não garante que o paciente não tenha sofrido outros danos. Uma hipótese é a de que a infecção da mãe ocorra num estágio tardio da gestação, quando o cérebro do feto já está quase formado e é menos afetado.
“São possibilidades em investigação. A microcefalia é a lesão maior, mas pode haver lesões menores. Acompanhar esses bebês é fundamental”, afirmou Ricardo Ximenes, professor da UFPE e da UPE e coordenador de uma pesquisa com gestantes com exantemas.
Consultor do MS para arboviroses, o clínico geral Carlos Brito concorda com a necessidade de ampliar o acompanhamento, passo decisivo para garantir a reabilitação. “Há evidências de crianças com crânio normal e com calcificações. Como a triagem é feita pelo perímetro cefálico, os sinais no desenvolvimento só vão sendo percebidos ao longo do primeiro ano”, explica. “Outros parâmetros deveriam ser incluídos no protocolo. Quando houvesse suspeita de infecção, que se fizesse exame de imagem. São bebês que, por terem menos alterações no sistema nervoso, podem responder melhor aos estímulos”, diz.
Política ineficaz
A diretora-geral da OMS, Margaret Chan, afirmou, na segunda (23), que a proliferação do zika, o ressurgimento da dengue e a ameaça emergente da chikungunya são o preço a ser pago pelo mundo por uma política fracassada adotada nos anos 70 e que deixou de lado o controle de mosquitos. “Fomos pegos de surpresa, sem nenhuma vacina confiável ou testes de diagnóstico disponíveis. Para proteger mulheres em idade fértil, tudo o que podemos oferecer são conselhos. Evitem picadas de mosquito. Prorroguem a decisão de engravidar.”
Fonte: Folha de Pernambuco



