As madrugadas do empresário Alexandre Bezerra, 41 anos, eram eternos pesadelos, interrompidas mais de dez vezes pelo despertar com a sensação de ausência de ar. Alexandre tinha apneia obstrutiva do sono e em decorrência do distúrbio deixava de respirar enquanto dormia, acordava assustado, roncava sempre e passava o resto do dia com sonolência. Estava com sobrepeso e decidiu fazer uma cirurgia bariátrica. Com o procedimento, mudou o estilo de vida e a alimentação. Voltou a praticar exercícios físicos. A decisão, que para Alexandre foi determinante no sentido de eliminar a apneia da rotina há seis meses, é o indicativo de um estudo de revisão da literatura médica realizado em Pernambuco e publicado no último mês de dezembro no Jornal Brasileiro de Pneumologia.
No artigo O papel do exercício físico na apneia obstrutiva do sono, o coordenador do serviço de fisioterapia do Hospital Dom Helder Câmara (HDH), fisioterapeuta Flávio Maciel, e o diretor de Ensino e Pesquisa do HDH, o cardiologista Rodrigo Pedrosa, evidenciaram que a prática regular de exercícios aeróbicos, como caminhada, pode amenizar ou até, em casos mais leves, trazer a cura da apneia. A partir da revisão de pesquisas realizadas no Brasil e no mundo, eles evidenciaram pelo menos cinco formas de impacto da utilização dessa estratégia no tratamento.
A primeira foi a comprovação de que em pacientes obesos submetidos à prática de exercícios físicos, mesmo quando não há redução de peso, ocorre uma melhora na quantidade de interrupções da respiração ao longo da noite de sono. A segunda é a de que a prática de exercícíos físicos impede a retenção de líquido ao longo do dia, favorecida em uma condição de sedentarismo, pois os músculos das pernas são os responsáveis pela dinâmica do fluido venoso.
“Quando a pessoa fica parada, o líquido tende a se acumular nas pernas. Quando você deita para dormir, a gravidade favorece a distribuição e parte do líquido se desloca para a região do tronco e do pescoço, comprimindo a laringe, por onde passa o ar”, explica o fisioterapeuta Flávio Maciel. Com a realização de algum treino aeróbico regular, haveria ainda uma tendência de diminuição na fase do sono onde há maior propensão a apneia; a musculatura responsável pela manutenção da via aérea aberta se tornaria mais eficiente e forte, impedindo os colapsos; e haveria também uma diminuição da resposta inflamatória sistêmica do corpo, motivo do agravamento da apneia.
Esses últimos três indicativos, porém, ainda necessitam de mais estudos. Mesmo assim, os especialistas são assertivos em afirmar o impacto da atividade física durante o dia nos níveis de apneia. “Existem alguns mecanismos para justificar. Uma atividade física mais vigorosa aprimora a capacidade dos músculos respiratórios. É como se houvesse uma melhora da arquitetura da sua garganta, diminuindo o ronco e a apneia”, detalhou Rodrigo Pedrosa. Os benefícios são multifatoriais, refletindo na área cardiovascular, na apneia e também na parte psíquica do paciente.
O recomendado para alcançar o objetivo é realizar caminhadas ou corridas em esteira, com carga moderada durante 30 minutos, no mínimo três vezes por semana. Os pesquisadores advertem, contudo, que os exercícíos devem ser realizados sob orientação e a redução dependerá do estágio da apneia. Para os casos leves, há a possibilidade de cura. Para os moderados, a progressão para o leve.
A partir do artigo, a ideia dos pesquisadores é criar uma linha de pesquisa dedicada a estudar a relação do exercício com a apneia no Laboratório do Sono e Coração do Procape. Flávio Maciel está estudando o treinamento isométrico de preensão palmar, aquele no qual a pessoa aperta durante um tempo médio um objeto com a mão. Também deverão ser estudados outros tipos de exercício, como a musculação, e o efeito deles sobre a apneia. Também já foi realizada investigação do impacto da apneia sobre a realização de esforço e comprovado que mulheres com obesidade e apneia têm nove vezes mais chances de ter a capacidade funcional reduzida se comparadas a outras.
Para Alexandre Bezerra, a apneia era mais um componente de uma vida desregrada. Durante as noites, os roncos fortes incomodavam a esposa e nas viagens o impediam de dormir para não passar vergonha no avião. A sonolência era frequente, inclusive quando dirigia. Depois da cirurgia bariátrica, ele melhorou e chegou a usar o CPAP, aparelho utilizado à noite para regular o fluxo respiratório. Depois que iniciou um programa de atividades diário na academia e voltou a cavalgar pelo menos três vezes por semana, abandonou a máscara. “Consequentemente, trouxe qualidade de vida, voltei a fazer tudo. Melhorou toda a parte biológica”, garante.
Fonte: Diario de Pernambuco



