Em 2016, Pernambuco registrou o maior número de óbitos por suicídio desde 2007, quando começa o balanço do Ministério da Saúde
Pernambuco registrou, em 2016, o maior número de mortes por suicídio da última década. A constatação é do Ministério da Saúde (MS), que divulgou nessa quinta-feira (20), pelo segundo ano consecutivo, os dados nacionais referentes a esse tipo de óbito. A publicação acontece durante o “Setembro Amarelo”, mês de conscientização sobre a importância da prevenção do suicídio. Em 2016 (dado mais recente), 11.433 pessoas tiraram a própria vida no Brasil. Em Pernambuco, foram 396 mortes, o maior número desde 2007, quando começa o balanço do MS. Em comparação com o ano de 2015, quando houve notificação de 308 óbitos, o aumento foi de 28,5%.
“É um número que nos assusta, mas não surpreende. As taxas de suicídio no mundo e no Brasil têm crescido e na prática clínica a gente tem observado esse aumento”, pontua o psiquiatra Rodrigo Silva, membro da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria (SPP). Somente na capital pernambucana, foram registrados 60 óbitos em 2016. O número de mortes é o mesmo de 2015, maior do que os registros de 2007 a 2014. “Quase todos os casos de tentativa ou suicídio consumado estão relacionados a transtornos mentais. Isso é causado pelo próprio ritmo de vida. As pessoas estão sendo muito cobradas e pressionadas. Também temos a questão do desemprego, do desamparo. Tudo isso, aliado ao péssimo acesso ao serviço público. Realmente, o aumento não é surpresa”, concorda a psiquiatra e diretora da SPP Milena França.
No Brasil, o suicídio é a 3ª maior causa de morte entre os homens com idades de 15 a 29 anos e a 8ª maior causa entre as mulheres na mesma faixa etária. “Os dados mostram que elas tentam mais, mas os homens são os que mais morrem, porque utilizam métodos mais letais”, explica a diretora da Secretaria de Vigilância em Saúde do MS Fátima Marinho. Este ano, o levantamento também levou em consideração os meios de morte. Ao todo, 60% dos brasileiros que tiraram a própria vida entre 2007 e 2016 utilizaram o enforcamento. 18% morreram em decorrência de intoxicação exógena e 10% por arma de fogo.
Para Fátima Marinho, entender como as mortes acontecem pode ajudar na prevenção. “Hoje os óbitos por medicamento são muito menos frequentes. Isso porque, anos atrás, se dificultou o acesso a remédios que, ingeridos em grandes quantidades, pudessem levar à morte. O que notamos nos casos de intoxicação exógena é o uso de venenos e agrotóxicos, principalmente em áreas onde a agricultura prevalece.” Em Pernambuco, 1.790 tentativas de suicídio por intoxicação foram notificadas em 2017. É o maior número desde 2007.
“Combater a venda ilegal de venenos é realmente importante. Outro ponto é que estamos vivendo uma época em que se discute a questão do porte de armas. É preciso ficar atento, porque elas podem representar risco muito grande para indivíduos que se encontram em episódios de depressão”, argumenta Rodrigo Silva. Para a diretora da SPP, Milena França, não basta restringir o aceso: é necessário ter atendimento de qualidade. “Os transtornos mentais precisam ser tratados. A gente sabe que não existe assistência adequada no Estado. Nos Caps (Centros de Atenção Psicossocial), as consultas chegam a demorar nove meses. Os leitos psiquiátricos foram fechados e os pacientes não receberam a devida cobertura.”
LEITOS
Em 2008, o Estado contava com 16 hospitais psiquiátricos e ocupava o segundo lugar no Brasil em concentração desse tipo de leito. Nos últimos nove anos, Pernambuco descredenciou cerca de 2 mil leitos de longa permanência em hospitais psiquiátricos, sendo o terceiro Estado em redução de leitos no País. Ao todo, 11 unidades foram fechadas. Nas cinco instituições em funcionamento, estão disponíveis 320 leitos. Eles se somam aos 96 leitos ofertados em hospitais gerais. Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) afirmou que “vem trabalhando para ampliar e qualificar a rede substitutiva.”
Os dados do MS mostram que a existência de Caps reduz em 14% o risco de suicídio. Pernambuco conta com 137 unidades, administradas pelos municípios. Cinco novos centros foram abertos no último ano, nos municípios de São João, Canhotinho, Nazaré da Mata e Calçado.
O Ministério da Saúde está investindo R$ 6,5 milhões na prevenção do suicídio. Desses, R$ 4,5 milhões serão destinados a pesquisas, R$ 1,4 milhão para o desenvolvimento de Redes de Atenção em seis Estados (Amazonas, Mato Grosso do Sul, Roraima, Piauí, Rio Grande do Sul e Santa Catarina) com maiores taxas de suicídio e R$ 500 mil ao convênio com o Centro de Valorização da Vida (CVV), que permite que pacientes recebam ajuda através de ligações gratuitas para o 188.
Fonte: Jornal do Commercio



