Aumento dos remédios

Em meio aos temores de uma inflação que dá sinais de fugir do controle e gerar expectativas que ameaçam uma escalada indesejável de preços, o governo federal autorizou um reajuste escalonado nos preços dos remédios que pode chegar a até 6,31%. Isso, quando a política econômica estabeleceu como teto da meta de inflação 6,5%, percentual já batido no acumulado de 12 meses. Esse cenário aponta para um provável aumento da taxa de juros, o que faz o fantasma inflacionário assustar ainda mais, mesmo quando se sabe que a elevação da taxa Selic é exatamente para provocar efeito contrário, tornando o crédito mais difícil e esfriando a economia, já perto do zero grau.

O que isso quer dizer: fica difícil entender por que esse aumento no preço de medicamentos. Mas é justo que seja recomposto todo o quadro para só então carregar contra a decisão. Por exemplo, é forçoso saber que esse reajuste vem sendo cobrado pela indústria farmacêutica desde 2011 por causa das pressões de custo – uma combinação inevitável de salários e importação de matérias-primas -, o que, certamente, não é pouco. Ainda mais, o setor busca atenuar o golpe explicando que o aumento médio ponderado fará com que a variação dos preços fique abaixo da meta. Mas o fato é que o aumento vai chegar ao bolso do consumidor e impactar ainda mais a inflação, que depende, nos próximos meses, da variação sazonal da produção de alimentos.

Não queremos acreditar que haja fraqueza do poder público no trato com matéria tão complexa e mais ainda quando tem que correr a explicar sua determinação em controlar a inflação sem desaquecer a economia, o que é muito mais complicado, como está sendo provado agora que o tomate – como no passado foi o chuchu – contribui para desequilibrar a meta de inflação. Esse vilão está sendo levado de volta ao plano do razoável com o aumento da produção, mas fica o exemplo das sensíveis condições de temperatura e pressão capazes de levar ao País a adotar medidas rigorosas e pouco populares, como é a agora esperada elevação da taxa de juros.

Entretanto, se não é fraqueza a elevação do preço dos remédios quando as condições reais da indústria farmacêutica exigem a medida, deve ser dito que o setor movimenta um comércio de R$ 70 bilhões anuais e que a classe C é responsável por 45% desse montante. O aumento, claro, estrangula ainda mais esse segmento da população e dá para sentir que o trabalhador – que já tem o seu salário sacrificado pela alta de produtos, muito sensível nos mercados e nas feiras livres – vai ter que pagar um pedaço da conta do remédio mais caro, sem que lhe seja explicada a retórica do combate à inflação de um lado e, do outro, a autorização de reajustes nos preços. Pelo que todos fazemos votos para que haja mais clareza no processo e não chegue de volta a nosso País o fantasma muito conhecido de gerações passadas, que aparecia com a expectativa da inflação e acionava diariamente as maquininhas de etiquetas de preços.

Fonte: Jornal do Commercio

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