Bebês com microcefalia, que geralmente apresentam espasticidade (distúrbio de controle muscular que causa rigidez – um quadro comum à maioria das crianças com a malformação), têm se beneficiado com aplicações de toxina botulínica tipo A, produto que ganhou popularidade com a marca Botox, no ano 2000, para o tratamento das rugas de expressão, mas que tem outras indicações terapêuticas desde a década de 1950. Na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), na Ilha Joana Bezerra, bairro da área central do Recife, pelo menos 15 bebês com microcefalia já iniciaram o tratamento com a substância e, dessa maneira, passam a ter músculos mais flexíveis, o que ajuda a amplitude de movimentos dos braços e das pernas.
“Observamos que alguns bebês com microcefalia começam a diminuir a abertura dos quadris. A tendência é fechá-los, as pernas ficam cruzadas e, com o tempo, isso faz com que o quadril se desloque e desencaixe. A hipertonia (aumento da rigidez) favorece a luxação. Por isso, vem a indicação da toxina botulínica e das órteses para os quadris e pés”, explica o ortopedista Epitácio Leite Rolim Filho, da AACD. Ele ressalta que o procedimento é um coadjuvante na tentativa de evitar deformidades ao longo do desenvolvimento infantil. “As aplicações de toxina botulínica fazem a musculatura relaxar e deixar a abertura da mão mais flexível, por exemplo”, acrescenta.
A pequena Alice Sophie, 9 meses, faz parte do grupo de bebês com microcefalia que passarão em breve pelo procedimento. Ela tem um quadro de hipertonia na mão e se submeteu a um raio-X para avaliação dos quadris. “Vamos ver se estão se deslocando ou não. Mas é certo que ela receberá toxina botulínica para melhorar a mobilidade da mão”, diz Epitácio. A mãe da menina, a técnica de enfermagem Silvaneide Pereira da Silva, 36 anos, relata que ficou surpresa quando soube da indicação para a filha fazer o tratamento. “Não tinha conhecimento de toxina botulínica para esses casos. Fico na expectativa de que dê certo. A melhora deles também é para a nossa felicidade”, diz Silvaneide, que leva a filha para reabilitação na AACD, no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip) e na Fundação Altino Ventura (FAV).
Assim como outros 20 bebês, em média, Alice Sophie deverá receber as aplicações do produto daqui a 15 dias, quando a Secretaria Estadual de Saúde deverá fornecer a substância para os pacientes da AACD, segundo Epitácio. “Nos pacientes com microcefalia que já iniciaram o tratamento com toxina botulínica, vemos resultados. Alguns receberam até reaplicação da substância. Pelo menos, até o momento, a gente tem evitado as deformidades ósseas e musculares, como também os encurtamentos. Aplicamos até num bebê com 2 meses que tinha muita secreção e, por isso, estava com broncoaspiração frequente. Ele melhorou.”
O pequeno David, que completou 1 ano em julho, também tem se beneficiado com a toxina botulínica. As primeiras injeções foram aplicadas na coxa. “Ele passou a abrir melhor as pernas. Antes, a troca de fraldas era difícil porque ele não deixava a gente fazer muitos movimentos, ficava agitado. Além disso, ele passou a fazer mais atividades durante a fisioterapia. Sem a rigidez nos membros inferiores, responde melhor aos estímulos”, vibra a mãe de David, a dona de casa Danielle Cândida da Costa, 33 anos.
Fonte: Jornal do Commercio



