Caos na saúde

Mardônio Quintas

Um terremoto está transformando, em todo o mundo, o sistema de assistência à saúde. Os abalos produzidos exigem das organizações e dos profissionais uma nova visão estratégica, aguda capacidade criativa e assimilação crítica de novos conceitos, paradigmas e valores. As forças que estão impulsionando as turbulentas mudanças – consumidores melhor informados, disponibilidade just in time de serviços, inovações tecnológicas, pressões da concorrência, diminuição de custos e margens, “desospitalização”, entre outras –, longe de estarem exauridas, pelo contrário, encontram-se em franca aceleração, conduzindo a uma única resultante: as mudanças são inevitáveis.

O novo cenário introduziu atores globais – deslocando ações que antes eram individuais e locais – e instrumentos de gestão, racionalização e fornecimento de serviços testados em escala internacional. O novo mercado emergente, extremamente competitivo, está provocando a migração do foco “doença/paciente” para “saúde/consumidor”.

Apesar da clássica dicotomia entre o setor público e setor privado, a verdade é que, guardadas as características próprias e singulares, ambos estão se mobilizando para enfrentar com sucesso essa nova e instigante realidade.

E qual é o foco desta, assim, nem tão “nova” realidade? O que todos querem: qualidade e baixo custo. Os serviços públicos, historicamente estruturados pela lógica da oferta, começam a ser submetidos a processos de automação, introduzindo-se graus variáveis de gestão por resultados, visando minimizar ineficiências, absenteísmo dos provedores, a constância das filas e baixa qualidade. É neste contexto que surgem os mecanismos de incentivo à economia da demanda, os quais permitem o melhor desenvolvimento dos requisitos de racionalidade, competitividade, qualidade e eficiência.

Não restam dúvidas, entretanto, que as transformações são mais profundas e radicais na estruturação e entrega dos serviços privados de saúde. Hoje, este setor, constituído pelas cooperativas médicas, medicina de grupo, seguradoras, empresas de autogestão e o “sistema” de desembolso direto, movimenta 60% dos recursos que giram no mercado de saúde, o qual estima-se corresponder a 6% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

Os novos cenários da saúde estão a exigir dos prestadores de serviços, especialmente médicos e hospitais, uma imediata adaptação. Apesar de o maior poder conceitual que detêm – já que o consumidor/cliente procura diretamente os prestadores – se não implantarem efetivamente um novo gerenciamento de suas atividades, tenderão a ser atropelados pelas exigências do mercado.

O novo gerenciamento pressupõe profissionalismo gerencial como base, compartilhamento de objetivos e conduta entre os médicos e hospitais, com maior responsabilidade e comprometimento de ambos, visão sistêmica do processo assistencial, padronização de procedimentos diagnósticos/ terapêuticos, racionalização e diminuição de custos, adoção de mecanismos de minimização de perdas administrativas e técnicas e formatação de pacotes assistenciais, entre outras medidas.

Assim, neste ambiente turbulento e pouco previsível, o sucesso pessoal e empresarial guardará íntima correlação com aqueles que perceberem mais precocemente a inevitabilidade das mudanças, adotando uma postura pró-ativa e tornando-se capazes de serem atores protagonistas e não meros coadjuvantes passivos.

Mardônio Quintas é presidente do Sindhospe

Fonte: Jornal do Commercio

 

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