A tarefa médica pericial é da maior responsabilidade social. A previdência é um fundo formado em grande parte pela contribuição daquele que trabalha muitas vezes realizando uma atividade pesada, insalubre, estressante, mas que se mantém corajosamente cumprindo seu dever. Em respeito a este cidadão trabalhador é que temos que avaliar com muito cuidado e isenção, a quem cabe receber os recursos tão duramente recolhidos. Este benefício é devido somente a quem está incapacitado, por doença, de exercer a sua função. O direito de ter suprida a fonte financeira de seu sustento, nestas condições, é sagrado, porque apoia a condição humana de fragilidade.
Quando o médico aceita a função de perito, renuncia ao ato que visa o benemérito da satisfação para assumir a resistência do propósito de não ceder aos interesses particulares, ameaças, ataques físicos e verbais. Cabe-nos, em qualquer circunstância – boa ou má, cumprir com nosso dever e zelar pelos nossos atos, pelos quais somos responsáveis e responderemos. Difícil, porém, é manter-se fiel a esse princípio na arriscada prática diária da nossa atividade, enfrentando situações de risco para a integridade física e a saúde mental. Neste embate rotineiro estamos sós, não contamos com apoio da Instituição, que nos trata de forma hostil. De sua parte sofremos ações que ao invés de reconhecimento pelo sacrifício imposto por esta difícil tarefa de ordenar o justo e devido usufruto deste patrimônio do trabalhador, sobrepõe o arroxo de tarefas e metas, o descaso com a segurança e condições de trabalho, o assédio de processos descabidos e fora de normatização, o regime insalubre que corrói a autoestima e destrói a motivação.
O bom perito é antes de tudo um forte, um caráter forjado na coragem e resistência. Merecemos reconhecimento, respeito e valorização. Não podemos acatar passivamente as exigências de acumulação progressiva de tarefas, simplesmente arcando com nível de estresse cada vez mais desgastante, vivenciando situação–limite para adoecimento, perdendo quadros de profissionais em larga escala, sem reposição. Precisamos de condições para realizar nosso trabalho com tranquilidade e eficiência.
É por demais pesado carregar sobre as nossas costas a desincubência do tamanho das filas, repercutindo em aumento progressivo da carga de trabalho intra e extra APS, de perícias agendáveis e não agendáveis, em constante pane e lentificação digital. Precisamos nos conservar inteiros para uma carreira longa, sem sacrificarmos nossa saúde e integridade. Precisamos adaptar nossa carga de trabalho com uma organização que sem escapar do estrito cumprimento de nossas obrigações, também contemple o amplo espectro de nossas atividades, as características do sistema em que depositamos nossos laudos e a nossa capacidade de permanecer tantas horas seguidas em trabalho ininterrupto, mentalmente pesado e psicologicamente desgastante.
Todo o acúmulo destas questões discutidas pela nossa representação associativa, a ANMP com os gestores do INSS reiteradamente desconsideradas e não sanadas pelo INSS nos fizeram chegar, ao momento atual de greve da categoria, lutando por justas e inadiáveis reivindicações.
Dura é a penalidade recaindo sobre o segurado sem cobertura de subsistência, o arrastado da luta sob o silêncio e a falta de proposta da Instituição. Que governo é esse que não negocia com o servidor público parado e sacrifica penosamente o trabalhador? Apenas o descaso, a vil indiferença e a irresponsabilidade civil justificam tal atitude.
Estamos de luto pela morte do bom senso dos gestores desta Instituição, solidários com os cidadãos que sofrem com o desaparecimento dos bons propósitos na condução da coisa pública. A eles nossos pêsames, nossas condolências, nosso pesar. Estaremos na luta sem esmorecer, sem desanimar. Mesmo que sobre nossas costas recaia a iniquidade das retaliações. Só o que não podemos nesta hora, é baixar a cabeça, desistir, forçados pela necessidade material que querem nos impor para nos tirar a força da persistência. Aqui fincaremos nossa bandeira e dela nos apossaremos, pois a causa é justa e tem que prevalecer.
Drª Adenise Mota – PERITA MÉDICA PREVIDENCIÁRIA – Gex Recife



