As enchentes que tanto maltrataram o Recife, as últimas de 1974 e 1975 inclusive com surto de meningite meningocócica, tiveram fim com a construção das barragens de Carpina e de Glória do Goitá. Obras estruturantes definitivas.
As cheias da Zona da Mata Sul também são ocorrências previsíveis e de conseqüências evitáveis. Por que as cidades cresceram dentro do leito dos rios? As pessoas não vão morar lá porque acham bonito! Espremidas pela cana de açúcar, as populações não fixadas ao campo ocuparam as periferias baixas das cidades. A ausência do planejamento público permitiu a instalação também de centros comerciais em áreas de risco e até os governos construíram em áreas vulneráveis.
Desta vez, ela chegou rápido. Não deu tempo para resgatar bens materiais. Só para as pessoas salvarem as próprias vidas – e ainda bem. Veio de repente, mas não sem avisos. Após décadas de erros, omissão, e participação em equívocos, não poderia ser diferente: as fortes chuvas, encontrando as encostas desprotegidas pelos canaviais, despejando volume d’água aos borbotões sem qualquer contenção, deságuam em rios cujos leitos enormemente assoreados e cheios de lixo e dejetos reclamam os seus domínios que – nessas circunstâncias – precisam ser ampliados. Para agravar, perdida a contenção vegetal da natureza, o poder público e o econômico não construíram as barragens compensatórias. Dupla negligência de que quem pode, que se triplica ao permitir a imprudência sobrevivente de quem não pode.
Por outro lado, escancara outra vulnerabilidade há tempos decantada pelos Bombeiros e especialistas: não estamos preparados para catástrofes.
Resultado: um terço dos municípios pernambucanos atingidos, o coração da Mata Sul em colapso. O tamanho da enchente é três vezes maior. E desta vez sem trégua: nova cheia uma semana depois da enchente parece trazer o recado – “quando vocês vão aprender ?“
Algumas conseqüências das últimas cheias: há pessoas ainda pagando dívidas da cheia de 2000. Há outras ainda esperando casas para repor as destruídas em 2005. Há seqüelas que permanecerão e vidas perdidas que não retornarão.
A iniciativa setores estratégicos desde o primeiro dia merece reconhecimento, especialmente o Exército e a Aeronáutica, a presteza da ação da Celpe, além das ações locais próprias. Agora é a vez de outros atores como as universidades com o seu saber, e a sociedade civil organizada com a sua expertise colarem no plano do governo para a área. Somatório.
Solidariedade: Vivemos um momento de amadurecimento social – as pessoas se preocupam, enfrentam filas para fazerem doações. Se oferecem como voluntárias. A solidariedade é pré requisito para uma sociedade mais justa, humana.
Medidas para distribuir os Itens de sobrevivência e donativos a todos é o desafio do momento. Fazer chegar a todos, sobretudo aos que moram na zona rural, conhecendo a realidade local. Por outro lado, a participação de atores independentes (Forças Armadas, Igrejas, movimentos sociais) tem ajudado a minimizar as injunções partidárias. Mesmo assim, há pessoas desassistidas na zona rural. Conseguiremos chegar a todas elas?
Fonte: Antônio Jordão é médico e secretário-geral do Simepe



