Volta a agitar-se de novo o panorama médico-cirúrgico brasileiro com a divulgação dos ele-vados índices (e são elevados mesmos) dos partos cirúrgicos em nossa terra, que atingem cer-ca de 84% nas clínicas de hospitais particulares e 40% no SUS (parabéns aos colegas do SUS) ,quando as melhores estatísticas mundiais, como americanas e europeias, exemplificam com uma média em torno de 15%.
Desta vez, foi o próprio MS, através da sua ANS, que manifestou desconforto com o fato , prometendo inclusive disciplinar o problema ao analisar as estatísticas e intervir nas possíveis causas. Não falaram porém em ouvir a Febrasgo, respeitável e competente órgão dos nossos toco-ginecologistas (avesso também a esses índices) nem no CFM, disciplinador da classe mé-dica, que através do seu presidente, nosso conterrâneo Carlos Vital, reconheceu a importân-cia da medida após a devida análise das circunstancias já que o caso oferece várias facetas.
Sucede porém que a situação está apenas se repetindo nesses meus 60 anos de vivência na especialidade, evidentemente aposentado, mas um enamorado da toco-ginecología, pois quando falo em clínica particular refiro-me a clientes dos hoje chamados Planos de Saúde , de ampla difusão ultimamente, pois a chamada clínica privada está em extinção. Garanto que não chega a 10% da clientela atual. No meio está o fundamental SUS, que merece mais respei-to dos nossos governantes. Um esboço do que estamos presenciando já tivemos nos idos dos anos 70 e 80, com as chamadas Clinicas de Convênios, de pouca duração. A realidade é que hoje a parturiente chega a uma maternidade sentindo-se uma estranha e receosa. Sente falta do seu pre-natalista e de acompanhantes, na maioria dos casos. Ela quer apoio no momento mais sagrado e sonhado de sua vida.
Ora, um trabalho de parto em primíparas, pode durar normalmente de 8 a 12 horas e atual-mente nenhum profissional pretende ou dispõe de tempo para internar-se com uma paciente, como fazíamos nos anos passados. Com multíparas também temos partos -relâmpagos. Hoje alguns planos dispõem de serviços próprios com suas equipes de plantonistas, o que facilita as coisas. E os que não têm? Some-se a isso o alto faturamento das maternidades particulares com as cesáreas e também o grande número de pacientes que pedem aos seus médicos para serem cesareadas (apesar de todos os riscos que envolvem uma cirurgia) , o que resulta de um ganho de tempo para todos.
Encerrando, ainda acho que foi e ainda é um crime, a retirada das parteiras tradicionais das nossas maternidades. Elas constituíam um grande apoio ás parturientes pelo seu efeito de presença e carinho durante a intimidade do trabalho de parto, além da tranquilidade que pro-porcionavam ao obstetra e á própria administração hospitalar.
Fonte: Diario de Pernambuco



