Cirurgias de mudança de sexo interrompidas

Um realizador de sonhos. De pelo menos 22 sonhos antes incompreendidos e praticamente impossíveis de se tornarem realidade. Era 1998 quando o médico João Sabino Pinho Neto teve, pela primeira vez, ao alcance das mãos, o poder de transformar homens em mulheres. A história começou com um jovem de 18 anos que procurou o Hospital das Clínicas (HC), no Recife, pois desejava ter uma vagina no lugar do pênis. Não estava satisfeito com o próprio corpo. Sentia-se infeliz. Era um caso típico de transexualismo que, segundo o Código Internacional de Doenças (CID), é diagnosticado quando o indivíduo abomina seus genitais e tem tendência ao suicídio e à mutilação. A cirurgia do jovem, feita três anos depois de ele procurar o HC, foi a primeira das 22 intervenções de redefinição sexual realizadas pelo ginecologista e sua equipe. Uma história de transformação que corre o risco de não ter continuidade. Sabino, que fará uma última cirurgia no próximo dia 7, está oficialmente aposentado desde dezembro do ano passado e não tem substituto.

No Norte-Nordeste, ele é o único profissional a fazer a redefinição sexual, também chamada de transgenitalismo. Aplicava a técnica por conta própria no HC, ligado à Universidade Federal de Pernambuco, onde era professor de ginecologia. Desde sua aposentadoria, o serviço está parado. Há negociações em andamento para as cirurgias serem custeadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “É uma cirurgia que custa pouco, assim como uma esterectomia, e tem um risco igual a qualquer outra intervenção”, explica o médico. Mais caros que a cirurgia, supõe-se, são os custos com a reparação em corpos mutilados pela insatisfação.

Busca pela felicidade

Hoje já não existe fila de espera para a cirurgia de mudança de sexo no HC. “Operei todos que esperavam fazer a transformação e vou operar a última pessoa nos próximos dias. Também acompanhei todos os casos no pré e pós-operatório. Não me arrependo de nada que fiz”, comenta. Para o médico, a intervenção tem um significado mais amplo. Algo que remete a um pensamento da década de 1940, do sexólogo alemão Harry Benjamin. “Ele dizia que não conhecia ninguém mais infeliz que o transexual e que o tratamento dessas pessoas não se dava com atendimento psiquiátrico. Teria que ser hormonal ou cirúrgico”, cita.

A cirurgia da felicidade, da busca por si mesmo. O médico tinha a compreensão do assunto e fez questão de aplicá-la nos pacientes. As histórias que chegavam ao HC comoviam e exigiam uma intervenção urgente. Certa vez, conta o médico, um homem arrancou os próprios testículos. Não cortou o pênis porque sabia que poderia morrer. “A insatisfação é tanta que muitos deles se referem ao órgão genital como coisa. Nunca chamam de pênis ou outro sinônimo qualquer”, explica.

A técnica de Sabino Pinho sempre chamou atenção pela busca da perfeição no desenho do novo órgão genital do homem transexual. A dívida restou somente às mulheres que não aceitam o próprio corpo. O médico diz que não conhece ainda uma técnica que transforme vaginas em pênis. Mas se a busca pela maior semelhança possível com o corpo que se deseja é primordial, o médico fez o que tinha ao alcance com quatro delas, tais como retirada de seios, útero e ovários. “Fico triste ao me aposentar. Mas fazer o quê? Tenho que saber até onde chegar”, comenta, com ar de dever cumprido.

Saiba Mais

Intersexualidade
O indivíduo tem o corpo de mulher, ou seja, o fenotipo feminino, que não corresponde ao genotipo, nesse caso, masculino. O mesmo vale para o sexo oposto

Transexualismo
Segundo o Código Internacional de Doenças (CID), é um distúrbio de identidade permanente, onde o indivíduo abomina seus genitais e deseja o do sexo oposto

Homossexualismo
Pessoa deseja o indivíduo do mesmo sexo, mas não quer a mudança de sexo

Travestismo
O indivíduo se sente confortável com seus órgãos genitais, mas gosta de se vestir de mulher. Em geral, gosta de pessoas do mesmo sexo

Fonte: Diario de Pernambuco

Compartilhe:

Deixe um comentário

Fique por dentro

Notícias relacionadas