Berço da cultura, Olinda embala filhos adotivos com mãos que mal conseguem trazer à luz os seus. A cidade que acumula títulos – Patrimônio Cultural da Humanidade, 1ª Capital Brasileira da Cultura, Monumento Nacional – não é capaz de acolher bem suas mães, olindenses por nascimento ou escolha, e joga nas mãos de outras cidades o dever de pôr seus bebês no mundo. Crianças que acabam virando filhos de sangue de outros municípios. Na cidade, apenas um hospital tem maternidade. Por pouco, ela não fechou as portas. Se isso tivesse ocorrido, a redução nos nascimentos seria drástica. Olinda correu o risco de passar pelo menos alguns meses sem ver nascer olindenses.
No Hospital Prontolinda, unidade particular, foram realizados partos até 2008. A Brites de Albuquerque, única maternidade vinculada à prefeitura, está fechada para reforma e ampliação desde novembro de 2010. A promessa de reabertura é para “maio ou junho do ano que vem”, nas palavras da secretária de Saúde da cidade, Tereza Miranda. E o hospital Tricentenário, unidade privada e filantrópica vinculada ao Sistema Único de Saúde por meio de convênio com a prefeitura da cidade, passou metade do ano de 2011 em total decadência. A situação piorou paulatinamente. A situação mais crítica ocorreu quando a maternidade deixou de funcionar durante mais da metade da semana. Dos seus 14 plantões semanais, oito fecharam. Faltavam médicos.
Em uma segunda-feira de dezembro, a enfermeira obstétrica de plantão não tinha o que fazer. Podia passar todo o expediente jogando cartas ou lendo alguma revista, tamanho era o vazio nos corredores. Na noite daquela segunda, já eram 84 horas sem partos. Não havia gestantes na triagem nem nas duas salas de pré-parto, com quatro leitos cada. As quatro salas de parto estavam vazias. O alojamento conjunto e o berçário, com quatro incubadoras e cinco berços, às escuras.
Parada em frente ao berçário, a enfermeira estava emocionada. “Minha sensação é de desespero. Primeiro por ver a população sem cobertura. Segundo, porque as maternidades já vêm de um contexto bem delicado”, disse, com lágrimas nos olhos, a mulher que não quis ter o nome revelado.
Mas o medo da enfermeira, de ver tudo aquilo ir “por água abaixo”, já não assusta mais. No início da apuração desta reportagem, a secretária de Saúde de Olinda, Tereza Miranda, contou ter feito proposta de incentivo mensal ao hospital no valor de R$ 50 mil. Gil Brasileiro, diretor da unidade, havia argumentado que a quantia não era suficiente para garantir o preenchimento de todos os plantões. Na ocasião, a secretária afirmou ao Diario não ter como aumentar o aporte. “R$ 50 mil é o máximo que a gente consegue oferecer. Se eu disponibilizar mais, vai ter cortes em outras áreas. E na saúde tudo é prioridade”, disse. Uma semana depois, uma assessora da prefeitura telefonou para a redação do Diario com uma boa e inesperada notícia: o Tricentenário receberá R$ 100 mil mensais.
Solução temporária
“Vai dar para resolver a situação no momento”, informou Gil Brasileiro. “Estamos tentando convocar os profissionais. Estamos em negociação, inclusive, com alguns médicos da casa. Em 15 a 30 dias esperamos normalizar a situação (abrindo a maternidade durante 24 horas). Mas vamos ter dificuldades em contratar neonatologistas, já que não há muitos profissionais dessa especialidade. E só podemos abrir os plantões se tivermos equipes completas”.
Antes do novo aporte financeiro, o hospital recebia da Prefeitura de Olinda R$ 540 para realização de cada parto, segundo o diretor da unidade. Com o incentivo, esse valor subirá para cerca de R$ 730. “Em Jaboatão, a prefeitura paga R$ 860 por parto; em Aracaju, R$ 1.050; e o SUS, R$ 615”, exemplificou Gil Brasileiro. A maternidade do hospital, que realizou mais de 5 mil partos em 2010 e já chegou a realizar 700 em um mês, está fazendo apenas 250 a 300 partos mensais. A meta é aumentar para cerca de 500 partos mensais, em 2012. Ainda assim, essa continua sendo a única opção para a realização de partos hospitalares na cidade. Pelo menos até meados de 2012, quando a Brites de Albuquerque, espera-se, deve reabrir com 50 leitos (eram 20) e capacidade de realização de partos de risco.
Fonte: Diario de Pernambuco



