Cuidados paliativos e a saúde pública

MARCOS MORAES*

Em outubro, celebra-se o mês de cuidados paliativos, data criada pela associação inglesa Help the Hospices. Todos os anos, em aproximadamente 70 países, são realizadas atividades com o propósito de destacar a data, que incluem variadas campanhas públicas de sensibilização. Torna-se cada vez mais importante conscientizar a população de que os cuidados paliativos são a chave para que o paciente em estágio terminal de uma doença tenha uma qualidade de vida melhor, assim como sua família.

No caso do câncer, apesar de a possibilidade de cura ser alta, é preciso levar em conta que, no decorrer do tratamento, a cirurgia, a quimioterapia e a radioterapia podem não ter mais indicação ou deixar de fazer efeito. Assim, muitos pacientes convivem com a doença fazendo o controle dos sintomas físicos e tendo suporte nas questões psicossociais, por meio de uma abordagem especializada em cuidados paliativos. Os centros ou serviços que prestam cuidados paliativos, quando conseguem aliar as necessidades de um hospital à hospitalidade, ambiência e a disponibilidade de tempo de uma casa, chamam-se hospices. Mais do que um local específico, é um conceito e uma filosofia que prepara a família para receber um paciente na fase final da doença. O objetivo é manter o paciente em casa, sem hospitalização, levá-lo para o contato com a família para dar mais qualidade a sua vida.

A Organização Nacional de Hospice e Cuidados Paliativos, dos Estados Unidos, estima que, em 2011, das 2.513 milhões de mortes no país, 1.059 milhão ocorreram em ambientes de hospice, o que equivale a 44.6% do total de mortes. É um número considerável. A orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de ter cuidados paliativos como estratégia de ação em sistemas nacionais de saúde.

No Brasil, foi a partir da década de 1980 que surgiram unidades ou centros de cuidados paliativos no Brasil, a maior parte vinculada ao tratamento de pacientes com câncer e/ou a centros de tratamento de dor crônica, nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro. Atualmente, são cerca de 70, sendo o Hospital do Câncer IV, do Instituto Nacional de Câncer, RJ, o maior deles.

A Fundação do Câncer está trabalhando no projeto de construção de um hospice, num terreno em Vargem Pequena, no Rio de Janeiro. A estimativa é de atender a 800 pacientes anualmente e, com o apoio e assistência a suas famílias, esse número pode ser triplicado. A intenção é receber pacientes do SUS e, por isso, estamos em negociações com o poder público.

Esperamos contribuir para que pacientes sem possibilidade de cura possam ter um fim de vida digno, num ambiente cujo projeto arquitetônico privilegia o descanso, o acolhimento e oferece uma atmosfera de serenidade, com jardins, mobiliário confortável, música e uma vista prazerosa. E contribuir também como inspiração para a construção de outras unidades de hospices no estado e no país.

*Presidente do Conselho de Curadores da Fundação do Câncer

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