Ter uma vacina ou remédio que acabe com a aids é um sonho cada vez mais próximo, mas ainda não é realidade. Real mesmo e alarmante é que grupos, antes mais expostos, voltaram a descuidar da prevenção. Especialistas na área observam um crescimento de casos entre gays jovens. O cenário torna-se sombrio porque muitos desses homossexuais masculinos adiam o diagnóstico ou, mesmo sabendo da condição de soropositivo, retardam a ida ao médico, temendo revelar para a família a orientação sexual e a situação de infectado. Trinta anos se passaram e o medo do preconceito parece intacto nessa epidemia. De janeiro a outubro últimos, 21 adolescentes de 15 a 19 anos descobriram ser portadores da síndrome em Pernambuco. Outros 323 adultos jovens, de 20 a 34 anos, também entraram na mesma roda.
Veronica Almeida
Pedro tem 19 anos, é universitário, trabalha, é bonito, descolado e gay. Mas está magro e vem adoecendo repetidamente. Descobriu há dois anos que tem aids. Assim como no passado, os homossexuais masculinos voltaram a se infectar numa proporção maior na última década, em Pernambuco e no Brasil, conforme estudos do Sistema Único de Saúde. E o pior, muitos retardam a primeira consulta médica, tentando fugir da realidade e do preconceito, mesmo depois do avanço terapêutico e da ciência ter mostrado que o vírus pode ser transmitido a qualquer pessoa.
“Foi complicado. Primeiro, passei um tempo sem coragem de fazer o teste. Depois, quando fiz e deu positivo, não sabia que atitude tomar, eu tinha apenas apoio de alguns amigos, não contei para minha família. Tinha que buscar dentro de mim ajuda, passei quase um ano até ir procurar tratamento”, diz o rapaz. Segundo ele, pesou o medo de assumir a doença. “Nesse mundo homossexual existe muito preconceito. Às vezes espalham que uma pessoa tem HIV só porque ela é magra, é difícil a gente se expor”, argumenta.
Na tarde em que se encontrou com a reportagem estava no ambulatório que frequenta, no Hospital Universitário Oswaldo Cruz, em Santo Amaro. Queria falar com o seu médico. Há 32 dias tentava tomar, sem sucesso, na rede pública do Recife e de Jaboatão dos Guararapes, injeções de penicilina. “Vou para as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e lá dizem que devo procurar as policlínicas. Nas policlínicas, mandam procurar o posto de saúde. Chego no posto e falam que é com as UPAs. Eu tenho ocupação e não posso ficar andando de um canto para outro sem soluções”, diz, retratando o atraso que não foi de sua escolha. Aliás, quando o soropositivo retarda seu tratamento, aumenta o tempo de espera natural que vai encontrar na disputa por vaga no SUS.
Quando Pedro resolveu marcar a primeira consulta esperou quase quatro meses para ter acesso ao médico e, depois dela, mais três meses para retornar com resultados de exames de carga viral e contagem de células CD4, as de defesa. Ele sente falta de maior acolhimento nos serviços, de apoio psicológico, nutricional e até mesmo de se encontrar com outros jovens como ele. Desconhece que exista uma rede nacional, que mobiliza e une a juventude que hoje vive com HIV.
Ele tem consciência de que se infectou por não ter usado camisinha em eventuais relações sexuais. “Falta informação precisa, tal como só use camisinha, faça sexo seguro. Falta diálogo, que explique o que o jovem quer saber e possa alertar quem está desligado”, ensina. Pedro sempre teve dificuldade para falar de sexo em casa e acredita que isso, de alguma forma, colaborou para a pouca importância que deu à camisinha.
“Hoje o jovem não está nem aí para os riscos de pegar doença sexualmente transmissível. Sai e transa com uma pessoa arrumadinha sem usar preservativo. Também tem gente que começa muito cedo”, observa.
Para quem está descobrindo agora a condição de soropositivo, o recado de Pedro é que procurem se cuidar, “usem o preservativo”. E lembra, “se rolou, não usou camisinha, é fazer o teste de seis em seis meses, perder o medo”.
Caio César Almeida, coordenador da Rede de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV e Aids, também se infectou cedo. Tinha relação séria, fixa. E só descobriu que o parceiro era soropositivo quando constatou estar infectado.
Passada a fase de choque, raiva, medo, descobriu que existiam grupos no País de pessoas, da sua idade, vivendo com o vírus da aids. Hoje mobiliza jovens em Pernambuco para que lutem por direitos e melhor qualidade de vida.
Embora a saúde pública tenha deixado de lado o discurso de grupos de risco para adotar o de comportamento de risco, é fato que existem pessoas mais vulneráveis à exposição. Os homossexuais masculinos estão nessa lista porque o coito anal, sem uso de preservativo, de fato é mais propício à entrada do vírus em razão das fragilidades da mucosa, explica o gerente de Prevenção de DST e Aids da Secretaria Estadual de Saúde, François Figueiroa.
Profissionais do sexo, em razão do maior número de parceiros, também se expõem mais ao HIV. Se for ainda usuário de droga, as chances aumentam, pois, por efeito da substância, pode perder a lucidez ou, para atender à dependência química ou obter a droga, aceitar transar sem camisinha.
DE OLHO NA COPA
O turismo sexual é ponto de preocupação do Grupo de Trabalho e Prevenção Posithivo (GTP+), principalmente às vésperas da Copa do Mundo de 2014, quando Recife é uma das cidades que receberá o campeonato. A primeira ONG de pessoas vivendo com HIV do Nordeste, fundada há 13 anos, tem projeto, com financiamento do governo federal, de orientação a escolares, enfatizando os cuidados e a proteção contra a aids. Além disso, pretende atuar junto aos profissionais do sexo, reforçando a campanha que já faz na rotina.
Para uma das principais referência em aids do País, a médica Marinela Della Negra, do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo, é preciso responder claramente ao jovem, esclarecer suas dúvidas e falar de relação sexual e de uso de droga de forma enfática. No serviço onde trabalha, que tratou os primeiros doentes de aids do Brasil, um ambulatório foi montado para atender adolescentes com HIV. O espaço tem equipe multiprofissional e um grupo, coordenado por uma educadora, que promove encontros, debates, atividades culturais é de lazer.
Fonte: Jornal do Commercio



