O luto, separação, uma demissão. Esses são fatores, dentre os mais pessoais e diversos, capazes de desencadear um quadro de depressão em uma pessoa. Diante de uma rotina corrida, cheia de cobranças e na qual o tempo é o fator que determina o ritmo de vida, foi notado o aumento dos casos de depressão. Segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado no final de março, houve o avanço de quase 20% de registros na última década, fazendo o transtorno se tornar a maior causa de incapacidade no mundo. O balanço indica que de 2005 a 2015 observou-se a crescente de 322 milhões de casos.
“A depressão é um transtorno que pode se dar por múltiplos fatores. E se trata de uma questão psicológica de como se encara a vida, as perdas, as separações, uma demissão, por exemplo. Todas essas coisas podem ser o ‘start’ para uma depressão”, explica o psiquiatra Dennison Monteiro. Além disso, ele explica que o fator genético também contribui. “Quem possui parentes com tendências depressivas tem mais possibilidade de tê-las também”.
A jornalista Jullie Dutra conta que iniciou um quadro de depressão em 2014, após a morte da mãe. “Eu relutei muito a acreditar que eu estava sofrendo disso. Como sou sozinha, ficou ainda mais difícil notarem isso. Eu não externava para as pessoas, mas os amigos mais próximos perceberam, porém eu já estava num estágio muito avançado. Procurei ajuda de psiquiatra e psicólogo, tomei remédios e faço terapia até hoje”, contou Jullie, com entrevista ao LeiaJá.
Sintomas e tendências suicidas
Apesar da tristeza profunda sofrida pela profissional, os sintomas eram diferentes. “Eu me isolei das pessoas, nada me fazia ter motivação e até deixei de trabalhar”, conta. Dennison Monteiro explica que esses e outros aspectos fazem parte de um quadro depressivo, assim como a insônia ou sono demasiado, alteração no apetite, pensamento pessimista e negativo de si e até mesmo pensamentos suicidas. “Depressão não é igual a tristeza. As pessoas têm o direito de ficarem tristes, mas o transtorno é aquela tristeza que não passa. É importante observar também que, se não tratada adequadamente, a depressão pode evoluir, fazendo com que a pessoa atente contra a sua própria vida. 50% dos depressivos chegam a pensar em suicídio e quase 100% dos casos consumados já registrados foram provocados devido a uma depressão”.
Papel da família e amigos
O psiquiatra alerta que a pessoa que está com a doença não tem força de vontade para agir. “Quando há incentivo para que o paciente saia de casa, vá a festas ou cinema, encontre pessoas e toquem a sua vida com normalidade, o depressivo pode se sentir ainda pior. Se ver como incapaz. Então é necessário o tratamento com ajuda de psiquiatra e psicólogo, em que haverá a terapia em conjunto com medicamento, a depender do caso”.
No caso da jornalista, uma amiga foi grande incentivadora para a busca por ajuda especializada. “Minha amiga me alertou que eu precisaria colocar um basta naquela situação. Foi aí que procurei ajuda e pesquisei, estudei muito para retirar de mim qualquer resquício da doença”, conta.
Tratamento
Jullie Dutra informou que seu tratamento foi uma união entre remédios e terapia. “Em determinado momento, me senti bem e resolvi fazer o desmame completo da medicação. Foi quando passei a sentir vertigens e qualquer tristeza me deixava no fundo do poço. A depressão havia voltado ainda pior”. Ela conclui que possuía preconceito com a necessidade de usar remédios. “Eu tinha medo da dependência, mas em conversa com o meu médico ele fez uma comparação com o uso de óculos e disse: ‘quem precisa de óculos para ver o mundo é viciado ou dependente de óculos? Não! Você prefere passar a vida tomando remédio e conseguindo viver com prazer ou depressiva?’. Depois disso, desfiz a barreira que eu tinha”.
O psiquiatra Dennison contou sobre a existência de outros tratamentos – além dos remédios – como a neuromodulação. Este consiste em um tratamento médico que aplica um campo eletromagnético a fim de estimular áreas específicas do cérebro. “Essa alternativa é usada, inclusive, em depressões que os medicamentos já não ajudam o paciente”.
São elas: Eletroconvulsoterapia (ECT), cujo método consiste na indução de crise convulsiva, através de um estímulo elétrico. É indicada principalmente na depressão grave ou resistente. De acordo com o Instituto Monteiro de Neuromodulação, produz melhora rápida e é feita com anestesia, sem desconforto. Outro tratamento é a Estimulação por Corrente Contínua (ETCC) em que há aplicação de uma corrente elétrica de baixa intensidade no cérebro, com eletrodos colocados no escalpo. Não invasiva e indolor, é eficaz na depressão e em outras condições mentais. O terceiro método é a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT), cujo um campo magnético é usado para modular a atividade neuronal, de forma focal e indolor. Indicado para depressão, TOC, dor crônica e esquizofrenia.
Já o papel da terapia com psicólogo “visa analisar com o paciente suas crenças, seus conceitos. Além disso, o que está reforçando o pensamento negativo dele”, explica a psicóloga Paula Frassinetti. Ela conta que durante a anamnese é avaliado o tempo de tratamento, assim como as causas que desencadearam a doença. Diante disso, ela aponta para um trabalho em que “são estimulados os pontos positivos, talentos”.
Ela ainda frisa a necessidade de que o paciente sinta empatia pelo terapeuta. “O psicólogo ajuda o paciente a se encontrar. Ajuda na visão negativa dele, no entanto, é necessário haver empatia do paciente com o terapeuta, senão a terapia não vai acontecer. Ele não vai se abrir. Tem que existir um entrosamento para o trabalho ser realizado”.
Para Jullie, a terapia é necessária e, apesar de não tomar mais remédios contra a depressão e, sim, para controlar a ansiedade, o contato com o psicólogo existe até hoje. “Preciso me manter monitorada, apesar de aquela pessoa de 2014 não existir mais. Entendo a depressão como um erro de sinapse e os medicamentos ajudam a melhorar isso, mas a terapia é importante para tornar a si, voltar para o eixo”. Ela complementa vitoriosa: “Após levar o tratamento a sério, hoje não abro mão de exercícios físicos, viajo e me divirto, busco sempre preencher meu tempo e procuro cada vez mais melhorias para minha profissão. Tudo que eu não quero é que a depressão volte”.
Fonte: LeiaJá



