Saúde mental: Desafio de executar ampla reforma no modelo assistencial voltou a ser evidenciado

O desafio de executar uma ampla reforma no modelo assistencial em saúde mental voltou a ser evidenciado esta semana, depois que uma vistoria no Hospital Ulysses Pernambucano (HUP), conhecido como Tamarineira, na Zona Norte do Recife, identificou problemas sanitários e de recursos humanos. O pente fino na unidade foi realizado pela promotoria da saúde do Ministério Público (MPPE) e o espaço também sofrerá inspeção da Vigilância Sanitária nos próximos dias. As deficiências estruturais são a ponta de um iceberg que tem uma base muito maior: a desassistência e descontinuidade de tratamento fora do HUP, que é a única emergência psiquiátrica da Região Metropolitana do Recife.

Com a ineficiência na rede dos Centros de Atendimentos Psicossocial (Caps) e das residências terapêuticas, os pacientes continuam a ter na Tamareira o único porto realmente seguro para o controle da doença. A prática fere as diretrizes do plano de reforma psiquiátrica, formalizado em abril de 2001, por intermédio da Lei 10.216, que condena o modelo hospitalocêntrico, de longas internações.  A normativa indica que o atendimento aos portadores de doenças mentais seja realizado em núcleos de atenção especializada, entretanto, essas unidades estão desestruturadas e mal aparelhadas. “O hospital passa por uma situação difícil. Se a decisão é mantê-los ali, há de se encontrar uma forma adequada”, disse a promotora Helena Capela sobre o que viu no Ulysses Pernambucano, na última segunda-feira.

Muitas infiltrações, banheiros sujos e quartos sem janelas. Paciente andando sem roupa pelos corredores. Muitos trabalhadores terceirizados, mas poucos enfermeiros e técnicos de enfermagem. Estes foram os principais pontos verificados no prédio pelo MPPE. Tão grave quanto a infraestrutura está a problemática da falta de interlocução da rede de assistência às pessoas com transtorno mental, que sempre acaba estourando no HUP. “Estão tirando, progressivamente, os crônicos, para encaminhar para os Caps, mas como a rede é falha, corre todo mundo para o Ulysses, que é a única porta de entrada para quem está em surto”, explicou Capela.

Essa baixa resolutividade nos Centros de Referência e nas residências terapêuticas está sendo alvo de um outro procedimento da promotoria, que deve reunir prefeituras da RMR e o Governo do Estado no mês de março. O drama de quem precisa de tratamento para familiares com doença mental é diário na promotoria e, segundo Helena Capela, representa a maioria das queixas no órgão. “Qualquer família tem dificuldade em tratar uma pessoa com transtorno mental. Imagine quando não se tem condições econômicas favoráveis”, enfatizou. Sara Rocha, de 30 anos, e a mãe esquizofrênica Maria Antônia, 63, estão entre as milhares de famílias insatisfeitas por viver na escuridão da incerteza. Mesmo com um Caps III – 24h, perto de casa, no bairro do Ipsep, a idosa não é vista por um psiquiatra desde agosto de 2013. “Acho que me excluíram”, contou a idosa.

Além de exclusão, solidão e tristeza são os sentimentos de Sara diante da desassistência da rede em relação a sua mãe. Ela sabe que, além de medicação, a idosa precisa de terapia e atividades complementares que deixaram de ser realizadas com a alta médica do Caps, desde o ano passado. A terapia foi substituída por serviços domésticos supervisionados por Sara, que deixou de estudar e trabalhar para ficar com Antônia. A dona de casa teve que vencer o medo da doença e das mudanças abruptas de comportamento da mãe, além de enfrentar o preconceito dos vizinhos.

Fonte: Folha PE

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