Diario Urbano – Salvem o Hemope

A realidade vivida por certas instituições públicas, no estado, é de partir o coração. Sobretudo as da área de Saúde, pelo que representam para o segmento mais pobre e desasistido. Quem, como eu, acompanhou de muito perto os áureos tempos do Hemope, até 1992, deduz que a infeliz ideia de transformar o Centro de Hematologia e Hemoterapia de Pernambuco numa fundação custou a vida de muitos pacientes. De centro modelo, referência indiscutível na região, a casa passou a colecionar perdas em todos os sentidos – de pessoal, recursos, estrutura, qualidade dos insumos, pesquisa, equipamentos –, restando apenas a disposição dos servidores em lutar para que o serviço volte a ter a qualidade que tinha na década de 90. De volta ao começo, antes que joguem a última pá de cal. Aos protestos na rua contra o desmonte e o sucateamento, somou-se uma audiência pública convocada pelos deputados Betinho Gomes (PSDB) e Augusto César (PTB), que levou à Alepe servidores, sindicatos e a Associação de Defesa dos Usuários e Planos de Saúde (Aduseps). As faixas e bandeiras pediam socorro e as falas se encarregaram de mostrar por quê. O discurso da presidente do movimento Amigos do Transplante de Medula Óssea (ATMO), Liliane Viana Peritore, foi contundente, como o da diretora Política do sindicato da categoria, Ivone Dias. No Hemope, hoje, faltam leitos e pacientes chegam a ficar três dias sentados em cadeiras; para as atendentes encarregadas de aplicar medicamentos via endovenosa, nem isso – são obrigadas a fazer a tarefa em pé. Por conta da péssima qualidade do material adquirido, a agulha do escalpe para soro não fura o braço adequadamente e quem o recebe tem a pele rasgada. Queixas sobre superlotação, o longo tempo de espera por consulta e todo o sofrimento a que a falta de estrutura submete usuários (vindos de vários municípios e regiões) lembram o que o governo se recusa a admitir: é preciso uma política urgente de hemoterapia. Foi dito, por exemplo, que (não raro) a ideia de levar pacientes de transplante de medula para o Hospital Português e depois trazê-los de volta à casa, a fim de receber os remédios, resulta em óbito, pois trata-se de paciente muito debilitado, carente de cuidados especiais.“Por que o governo, que se empenha em construir UPAs e hospitais grandes, não destina um andar inteiro em um deles para tratar adequadamente essas pessoas?”, questiona Ivone. Os números e os aspectos que comprometem a sobrevivência do Hemope e dos pacientes não combinaram (é claro) com a fala do presidente da Fundação, Divaldo Sampaio, que recebeu da presidente da Aduseps, Renê Patriota, sugestão para entregar o cargo. Não acatou, obviamente, preferindo falar da aceitação do seu nome entre os que o escolheram. Na próxima sexta-feira, Aduseps e ATMO fazem relatório do “caos”, para entregar à Assembleia Legislativa, como parte da luta destinada a recuperar a instituição. Nas entrelinhas, um pedido: salvem o Hemope. A coluna se coloca absolutamente solidária ao pleito.

Fonte: Diario de Pernambuco

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