Doadores de sangue e o compromisso com a vida

O Ministério da Saúde publicou a Portaria N° 2.712, em 12/11/2013, ampliando a idade máxima para doação de sangue no Brasil, de 67 para 69 anos, dando a oportunidade aos doadores idosos de continuarem a doar sangue por mais tempo. A figura do doador de sangue, no Brasil, ainda está associada à imagem do indivíduo jovem, no ápice de sua vida produtiva, imagem esta certamente influenciada pela efetiva participação daqueles que ingressam no serviço militar, que também estariam habilitados a realizar a primeira doação de sangue. O limite máximo de idade de 60 anos, imposto pela legislação, na década de 50, também contribuiu para reforçar a ideia de que a prática do ato da doação de sangue está sujeita a uma contagem regressiva, como se o sangue fosse diminuindo a sua qualidade e o doador perdendo a possibilidade de produzi-lo com o passar do tempo.

Nos Estados Unidos, a idade limite de 65 anos para doar sangue, foi abandonada há muitos anos e estudos revelaram que a doação regular de sangue total, por adultos saudáveis, é extraordinariamente segura, isso sendo igualmente verdadeiro para os mais idosos. Já na Alemanha, estudos sobre a influência de doação regular de sangue em relação a aptidão física de idosos saudáveis, revelaram que não existe prejuízo detectável da função cardíaca, após a doação regular de sangue, e, além disso, não encontraram influência negativa da doação de sangue sobre a aptidão cardiorrespiratória, na correlação com a idade ou aptidão física prévia, em diferentes doadores de sangue idosos saudáveis, ou seja, estes têm o mesmo mecanismo de compensação cardiovascular encontrado nos participantes mais jovens.

Não há razão para desqualificar doadores regulares de sangue da doação somente devido à idade, pois isso representa privar pessoas de mais idade de sua responsabilidade social, da qual elas têm satisfação pessoal e sentimento de realização. Essa iniciativa do Ministério da Saúde contempla o interesse de centenas de doadores de sangue em todo o Brasil, que comemoram em 25 de novembro, o Dia Nacional do Doador de Sangue. Em Pernambuco, o Hemope, que esse ano completa 36 anos de existência, também na mesma data, homenageou mais de 300 doadores, que completaram 25, 50, 75 e 100 doações de sangue, muitos deles doadores idosos, todos comprometidos com a vida.

É, sem dúvida, o reconhecimento institucional, de um órgão público dotado de enorme força de trabalho e indiscutível capacidade técnica, que vem ampliando, ano a ano, o quantitativo de bolsas de sangue, ultrapassando a casa das 100 mil unidades coletadas, proporcionando mais de 300 mil transfusões por ano, tudo isso com a garantia de uma excelente qualidade em todos os seus serviços. Espera-se, nas próximas décadas, maior engajamento de doadores mais idosos no programa de doação de sangue em Pernambuco, devido às mudanças provocadas pela transição demográfica, que vem resultando na diminuição da população jovem, que mais doa sangue em nosso Estado, e o aumento da expectativa de vida da população idosa, com consequente ampliação da demanda de sangue, para que se mantenha o equilíbrio entre o volume de sangue coletado e transfundido em nosso meio.

DIVALDO SAMPAIO
MÉDICO E PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO HEMOPE
Artigo
Fonte: Diario de Pernambuco

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