O ato público de soropositivos no Centro do Recife com vigília na frente da Câmara Municipal chamando atenção para os 600 mortos em 2015 por causa da aids não parece ter despertado a mesma consternação provocadas pela crise política, mas devia. Até porque naquele ato estava exposto em vitrine para todo mundo ver deformações do nosso sistema de saúde que estão intrinsecamente ligadas à natureza da degradação a que chegou a vida publica, chegando a condições inaceitáveis como a falta de medicamentos e leitos em hospitais de referência, distribuição de remédios fora do prazo de validade e demora para a realização e recebimento de exames. Uma combinação perversa que agrava um dos setores que mais frequentemente escancaram as deficiências da saúde pública.
É escandaloso se verificar que é preciso uma vigília na frente do legislativo municipal do Recife para que a população se dê conta de que 600 pessoas morreram em decorrência de um mal que vem sendo dado como sob controle. Isso, quando portadores de HIV vão às portas do governo do Estado, no Palácio do Campo das Princesas, para dizer ao governador e seus auxiliares mais diretos que a maior incidência de óbitos por HIV do Nordeste está na Região Metropolitana do Recife e que o coordenador regional da Rede de Pessoas vivendo com o vírus causador da aids foi um dos pacientes que receber medicamento vencido no Hospital Correia Picanço, hospital de referência em Pernambuco.
E a esses casos outros foram e são adicionados para proclamar a indigência em que se encontram pessoas que dependem de drogas que estão vencidas ou em falta. Foi pelo menos animador saber, no curso do ato público, que a Secretaria de Saúde estava cuidando do abastecimento de medicamentos antirretrovirais e que havia recebido uma remessa para ser distribuída nesta semana. Menos mal, sobretudo após o reconhecimento de que as coisas precisam melhorar nessa área, inclusive na forma com que o problema é tratado para o público externo, considerando-se que não se trata de questões isoladas mas de um problema de larga escala, com informações precisas: desde o início da epidemia de aids, em 1983, em Pernambuco foram diagnosticados 24.484 casos.
Poderia, quem sabe, despertar na população alguma coisa aproximada do nível de indignação que causa hoje a atividade política, saber hoje que em fevereiro já se discutia em audiência do Ministério Público a falta de medicamentos para HIV/Aids na rede pública do Estado. Se esse problema não for tratado com o rigor e a seriedade que o mal representa estaremos condenados não apenas a ver mantido e até ampliado o surto da doença enquanto a população não se dá conta de sua responsabilidade em acordar órgãos e entidades da administração pública.
Fonte: Jornal do Commercio



