Doença rara investigada

O tratamento de uma cozinheira de 54 anos que já não anda, fala nem consegue se comunicar por gestos foi parar no Ministério Público de Pernambuco. Ainda não há diagnóstico fechado, mas suspeita-se que a mulher esteja com uma doença chamada Creutzfeldt-Jakob. Rara (um caso para cada 1 milhão de pessoas), a enfermidade ataca o Sistema Nervoso Central e provoca uma demência progressiva. É fatal em 100% dos casos e altamente contagiosa após a morte, apesar de não oferecer grandes riscos em vida. Uma variante da doença pode ser transmitida por meio da ingestão de carne de gado com a doença da vaca louca. Mas essa possibilidade já foi descartada. No Brasil, nunca houve registro de humanos contaminados por carne bovina. Em Pernambuco, desde 2006, 11 casos da doença de Creutzfeldt-Jakob foram notificados. Cinco foram confirmados.

Sem certeza do diagnóstico (que só é fechado após a morte), sem clareza sobre os exames solicitados e sem ter recebido informações sobre a enfermidade nos outros três hospitais por onde a cozinheira passou, a família da paciente se recusou a assinar documentos que autorizassem a realização de alguns testes. Daí, o acionamento do Ministério Público. Como há risco de contágio após a morte do paciente ou em procedimentos neurocirúrgicos, a promotora de Defesa da Cidadania de Olinda, Helena Capela, expediu uma recomendação para o Hospital Tricentenário, onde a paciente está internada há 16 dias, seguir o protocolo da doença e realizar os exames necessários, independentemente de autorização familiar. Ontem, ciente da recomendação, a família já não se opôs mais aos testes, o que descarta a necessidade de ação judicial.

A promotora também recomendou que a paciente não seja removida do hospital. Já foram realizados exames de eletroencefalograma e ressonância magnética. Também foi colhido líquor cefalorraquidiano para verificar a presença da proteína 14.3.3 e de sangue para analisar se há uma mutação genética. Os resultados podem só ser conhecidos após alguns meses.

A paciente está internada em um quarto de enfermaria, sem contato com outros doentes. Médicos suspeitam que além de não falar e não andar, ela também não esteja mais enxergando. Segundo a gerente de Agravos da Secretaria Estadual de Saúde, Nara Melo, só há risco de contágio da doença em vida caso instrumentos neurocirúrgicos utilizados na paciente sejam reutilizados. Mas essa forma de transmissão é bastante rara. Após a morte, no entanto, a chance de contágio é alta, devido a liberação de fluidos corporais, especialmente da cabeça, que podem contaminar o solo e fontes de água. Por isso, sendo mantida a suspeita de doença de Creutzfeldt-Jakob, a família não terá sequer direito ao velório e o corpo da paciente terá que ser cremado. Nos casos em que a família não tem recursos para financiar a cremação, o governo do estado arca com as despesas.

Entrevista >> filha da paciente, 28 anos

“As enfermeiras não queriam nem entrar”

Quando os sintomas começaram?
Em agosto do ano passado. Ela sentia dores nos braços e nas pernas. Depois, começou a perder a força e o movimento das pernas. Ficou sem andar e perdeu a fala. Foi rápido. A cada dia, ela ia piorando.

Quando vocês resolveram levá-la ao hospital?
Um mês depois do início dos sintomas. Primeiro, a gente procurou um médico no Cabo de Santo Agostinho, onde a gente mora. Ele não fez exame, mas disse que era um tipo de derrame. Passou dez caixas de remédio. Cada uma custou R$ 100. Ela tomou, mas não melhorou. Levamos ela pro Hospital Dom Helder, que a encaminhou ao Hospital das Clínicas. Lá, ela passou uma semana, sendo três dias na UTI. Um médico das Clínicas disse que o caso era muito sério. Do HC, ela foi para a Restauração, onde passou um mês na UTI. De lá, veio para o Tricentenário.

Há quanto tempo ela está no Tricentenário?
Há duas semanas. As enfermeiras não queriam nem entrar. Davam as coisas a mim na porta, mas tudo era a gente (a família) que fazia.

Porque vocês não autorizaram os exames?
Quiseram que eu assinasse um papel e eu disse que não assinava. Disseram que o papel era para pegar o corpo dela para estudar. Depois disseram que não era, que era para fazer exame de sangue. E desde quando precisa assinar papel para fazer exame de sangue? Não assinei porque eu fiquei com medo. Se for a doença, a gente tem que aceitar. A gente só queria que transferissem ela para mais perto de casa.

Fonte: Diario de Pernambuco

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