O médico e pesquisador de uma vacina para aids, o pernambucano Luiz Cláudio Arraes, dedica-se ao tema desde o tempo da residência médica, há 27 anos. Conheceu a fase pré-terapia, na qual tratavam-se as infecções oportunistas, uma por uma, “num cansaço sem fim”. Na década passada participou do grupo que desenvolve uma vacina terapêutica e agora planeja nova missão, colaborar com um projeto que usa moléculas do avelós para estimular linfócitos, células de defesa que abrigam o HIV. Avalia que o Brasil avançou em tecnologia e na formação de equipes para conhecer melhor o vírus. Alerta, no entanto, que não se pode perder o foco em duas coisas fundamentais: na dinâmica da epidemia, rodeada de novos desafios sociais, e na redução a zero da transmissão vertical, de mãe para filho.
JC – Que balanço faz dos estudos sobre a aids?
LUIZ CLÁUDIO ARRAES – A triterapia foi a grande revolução. Se Cazuza tivesse se beneficiado, estaria vivo. Ele tomou AZT, DDI e DDC, as três drogas iniciais, separadamente, uma em substituição a outra, quando David Ho, em 1996, teve a ideia de associar alguns antirretrovirais. Tornava, assim, indetectável o vírus e isso correspondia a uma subida dos linfócitos, as defesas. Outra descoberta importante a partir daí foi a imune reconstituição. Pensava-se que HIV consumia o sistema de defesa, como uma vela queimando, e, ao iniciar o tratamento, essa vela parava de queimar. Mas descobriu-se a sua capacidade de se recompor. O problema é deixar de tomar ou tomar de forma errada os remédios, o que é nefasto, além do advento de cepas mutantes que complicam o tratamento.
JC – Quais as perspectivas atuais quanto à cura?
LUIZ ARRAES – Existem várias. Ninguém se satisfaz com tratamento contínuo, é muito difícil tratar uma pessoa crônica assintomática. Ela apresenta mais sintomas que são efeito dos medicamentos do que do HIV. As pessoas se cansam quanto mais o tempo passa. Tentou-se vacinas terapêuticas e preventivas, mas nenhuma resultou num padrão ouro. Mais recentemente se fala em erradicação do vírus. Moléculas descobertas, já em testes com animais, ativariam os linfócitos que abrigam o HIV, tornando os vírus visíveis aos medicamentos. Há três grupos bem avançados nessa área, um nos Estados Unidos, e dois no Brasil, um de Amilcar Tanuri (UFRJ-RJ) e o de Ricardo Diaz (Unifesp-SP) e grupos europeus.
JC – E a vacina terapêutica? por que não continuaram os testes no Recife?
LUIZ ARRAES – Foi muito importante, começou aqui há dez anos. Mas centros mais fortes tinham mais condições de fazer isso. Nossa intenção é entrar no projeto de erradicação do vírus, através de uma molécula extraída do avelós, estudo que vem sendo feito na UFRJ e no exterior.
JC – E a vacina para prevenção?
LUIZ ARRAES – Existe uma em teste na Universidade de São Paulo, mas parece difícil. Nenhuma funcionou até agora no mundo. A mais famosa delas, mostrou que o grupo vacinado se infectava mais do que o não vacinado e teve que ser parada imediatamente. As pessoas vacinadas se achavam protegidas e descuidavam-se.
JC – Por que é difícil debelar o HIV?
ARRAES – O vírus é muito complexo, ele muda muito, tem uma particularidade, o local pelo qual tem afinidade é o sistema imunológico. Quando a gente ativa o sistema imunológico contra o HIV, ele se beneficia dessa ação. É preciso ter uma resposta imunológica inteligente, não convencional. O vírus vem de macacos, são seis tipos e existem reservatórios que não passaram para o homem ainda.
JC – Como avalia a posição do Brasil?
ARRAES – O Brasil montou rede de médicos, profissionais, laboratórios e de sofisticada genotipagem como nenhum país fez. Formou quadro significativo de especialistas para pesquisa básica. Agora tem que tomar cuidado, sempre estar vigiando a dinâmica da epidemia. Exemplo, temos o fenômeno do crack. Está dizimando as populações e faz associação brutal com o HIV. Depois, temos o diagnóstico tardio, causado pelo medo e preconceito. Deveríamos trabalhar com o princípio da realidade. Ora, se a pessoa tem vida sexual ativa, deve fazer o teste de vez em quando. A gente observa muito tratamento tardio, a pessoa num estado como se via antes da triterapia. O Brasil não venceu a batalha de zerar a transmissão de mãe para filho.
JC – Por que o preconceito não foi vencido?
LUIZ ARRAES – Mudam as palavras mas não acho que seja esse o caminho. Não é para ter vergonha das doenças. Sou contra a terminologia usada pelo Ministério da Saúde no trato com HIV. A meu ver provoca um certo preconceito. A gente não pode dar uma palestra e falar homossexual, que em grego quer dizer eu sou igual a você, parecido com as palavras do Cristo, amai o próximo como a si mesmo. Tem que dizer homem que faz sexo com homem. As autoridades e os especialistas criam preconceito, inventaram que homossexual virou pejorativo. É uma problemática onde não cabe mentira, enganação, tem que ser tratada com respeito, cuidado, com acolhimento, com generosidade, mas com verdade também.
Fonte: Jornal do Commercio



