Em clínicas, adolescentes tornam-se travestis

Eles chegam nas clínicas estéticas clandestinas acreditando numa transformação para aumentar a autoestima. Mas, no dia seguinte, já não se reconhecem no espelho. A mente permanece de homem. O corpo, não. Envergonhados e ameaçados, restam aos meninos aliciados aceitarem as condições impostas pelas quadrilhas. Estudo da International Centre for Migration Policy Development (ICMPD), em parceria com o Ministério da Justiça, divulgado neste mês, revelou que a principal rota dos travestis aliciados é a Itália. A informação corrobora com as frequentes denúncias recebidas pelo Disque 100.

A coordenadora do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas de Pernambuco, Jeanne Aguiar, contou ao Diario que os relatos de casos de meninos aliciados que passam por cirurgias estéticas em São Paulo e no Rio de Janeiro foram um dos assuntos discutidos em recente reunião dos núcleos nacionais. Mas, segundo ela, a informação de que garotos do Sertão têm sido vítimas de exploração ainda não se confirmou porque as famílias não denunciam à polícia esse tipo de crime. “Elas não fazem isso por medo de perder a vida. É mais fácil relatarem às ONGs porque há uma identificação”, explicou. Segundo Jeanne Aguiar, o governo estadual abriu uma licitação para a criação de núcleos itinerantes de combate ao tráfico de pessoas. O objetivo é visitar municípios do interior do estado. “Nossa frente é de prevenção. Vamos mostrar às pessoas como elas devem denunciar”, disse.

Além da Itália, os principais países que servem de rota para o tráfico de pernambucanos são Japão, EUA, Portugal, Espanha e Holanda. “O que a gente observa é que os nordestinos saem para se sustentar e acabam sendo vítimas do tráfico humano e exploração sexual”, apontou o ouvidor nacional de Direitos Humanos, Bruno Renato. Em 2011, o Disque 100 registrou 9.465 denúncias de violência sexual no Brasil. Destas, 28% estão relacionadas à exploração sexual. Em Pernambuco, foram contabilizados 58 casos.

Fim trágico

Com pouco dinheiro no bolso, mas cheio de boas expectativas na mente, Diego Augusto Santos Costa, então com 17 anos, fugiu do Brasil para a Europa com documentos falsos para trabalhar como garoto de programa. As passagens e o acolhimento teriam sido pagas por outra pessoa, nunca identificada. Para a polícia, um exemplo comum de tráfico internacional humano. Três anos depois, Diego foi detido pela polícia italiana por prostituição e falsificação de documentos. Dias depois, no Natal de 2009, teria se enforcado numa cela do Centro de Acolhimento para Estrangeiros de Milão. A polícia apontou suicídio, mas a família nunca aceitou o resultado. “Nunca houve prova alguma da morte dele. Sequer tive direito de ver o corpo do meu filho. Ele foi em busca de uma promessa de melhoria de vida” lamentou a mãe, Audilene Alves dos Santos, 52.

Fonte: Diario de Pernambuco

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