Entrevista -Carla Rameri Azevedo

“É a perpetuação da dor”

A médica Carla Rameri faz questão de frisar que o seu sobrenome ainda é “Azevedo”, numa referência ao marido assassinado. Ela conta que está satisfeita com os trabalhos da polícia e da Justiça até então e que a obrigação de acompanhar o processo termina renovando a dor pela perda de Artur.

JORNAL DO COMMERCIO – Um ano após o assassinato de Artur, como está a família?

CARLA RAMERI AZEVEDO – Estamos todos esgotados, mas não sucumbindo. A cada dia tentamos renovar as energias, mas a fadiga e o esgotamento que esse processo traz são desumanos. A perda de Artur, por si só, é uma dor indescritível, e permanecer nesse processo é uma perpetuação e renovação diária dessa dor. A mãe dele está vivendo pela misericórdia, e o pai, que era um sujeito firme e forte, hoje parece um passarinho, tamanha a fragilidade. São dores individuais que se somam. Só quando tudo isso acabar é que vamos poder todos olhar para as nossas vidas e seguir em frente.

JC – Que avaliação a senhora faz das recentes declarações dos acusados (Cláudio Amaro disse não ter nada a ver com a morte de Artur, e o filho dele, Cláudio Júnior, assumiu que apenas quis dar um “susto” no médico)?

Carla – Quando tudo isso começou, a gente não tinha a menor ideia de quem seria capaz de fazer uma coisa dessas. Mas à medida que a investigação foi evoluindo, ficamos totalmente crentes do que aconteceu. Existem as digitais de Cláudio Júnior na garrafa de combustível e ele não tinha qualquer relação com Artur. A hipótese de que meu marido teria humilhado o pai dele é fantasiosa: quem conhecia Artur sabe que isso não tem o menor cabimento. O crime foi o ponto alto de uma relação que já vinha desgastada. Cláudio Amaro já vinha praticando assédio moral contra Artur no Hospital das Clínicas (HC), e meu marido tinha acabado de ingressar em uma câmara técnica do Conselho Regional de Medicina (CRM), a qual ele pretendia pedir novos padrões de qualidade para sua especialidade (cirurgia torácica). Isso certamente iria incomodar o Dr. Cláudio. Além de tudo, o filho dele não teria condições de arcar com o custo financeiro para consumar o crime. Isso tudo corrobora a tese da Polícia Civil, de que eles todos estão por trás do que aconteceu.

JC – Como a senhora avalia a investigação policial e o trabalho da Justiça até agora?

Carla – (O delegado) Guilherme Caraciolo foi muito eficiente e correto nas investigações. Ele é muito firme ao afirmar a culpa dos dois, e nós acreditamos piamente nisso. A Justiça também tem sido muito precisa até então. Estamos aguardando os próximos passos, sempre com plena confiança de que os culpados vão pagar pelo crime que cometeram. A cada novidade que aparece pelo lado deles, aumenta a nossa perplexidade. Não dá para entender onde querem chegar com tudo isso.

JC – O que mantém a senhora e os demais familiares na luta?

Carla – A força que tiramos de Artur e de nossos amigos. Eles dividem conosco essa dor que a gente tem que carregar. E eu só tenho a agradecer a todos por isso.

Fonte: Jornal do Commercio

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