SAÚDE Por causa do déficit de plantonistas, o setor de pediatria suspendeu, durante parte do dia de ontem, internações. Estima-se que unidade precise de 500 profissionais
O setor de pediatria do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Pernambuco suspendeu ontem internações por falta de médicos plantonistas. A decisão, segundo a direção da unidade, foi tomada por médicos assistentes depois que residentes desistiram de assumir plantões sem preceptores. O HC vive mergulhado numa crise por falta de verba e autonomia. Tem no momento um déficit de 500 profissionais.
No início da noite de ontem, o diretor de assistência à saúde do hospital, Roberto Campelo, informou que as internações tinham sido retomadas. Segundo ele, a suspensão do atendimento foi feita sem que a direção tivesse sido comunicada. “Fizemos arranjos com pediatras da casa e, a partir de agora, teremos preceptores para os residentes à noite e nos fins de semana”, alegou. Ele reconhece o déficit histórico de médicos no hospital-escola e explica que não há autorização do Ministério da Educação nem autonomia para que a unidade faça contratos.
A solução definitiva, conforme o hospital, depende da adesão à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), a terceirizada criada pelo governo federal para gerir os serviços universitários. O Conselho da UFPE autorizou este ano a universidade a receber uma proposta da empresa, mas a adesão ainda dependerá de uma nova consulta ao conselho, que analisará diagnóstico e proposta da EBSERH. Servidores são contrários à adesão, entendem que seria o princípio da privatização.
A falta de plantonistas na pediatria do HC é antiga. Os residentes, no entanto, cansados de assumir responsabilidade que não é deles, resolveram pressionar por uma solução. Em carta, informaram que na quarta-feira passada a Comissão de Residência Médica já havia decidido que a partir de ontem os médicos em especialização não poderiam mais cumprir plantões sem supervisão. “Como o hospital não preencheu as escalas, os residentes não podiam se manter nos plantões”, explicou Carlos Tadeu, presidente da Associação dos Médicos Residentes de Pernambuco. Segundo o chefe da pediatria, Antônio Correia, mesmo sem os plantonistas, os residentes nunca ficaram sem supervisão. Plantonistas da neonatologia, clínicos e outros médicos davam orientação na ausência de um preceptor lotado na enfermaria à noite e fins de semana.
A suspensão das hospitalizações na enfermaria do 6º andar preocupou as mães. “A gente fica desorientada numa situação dessa. Desde o primeiro mês de vida meu filho Gustavo, de 1 ano e 4 meses, tem problema de saúde e se trata no HC”, afirmou Sorili Maria da Silva, agricultora de Itaíba, Agreste. A criança deu entrada domingo para realizar uma colonoscopia e teve alta no início da tarde de ontem. Ela também não tinha transporte para voltar para casa.
Segundo o hospital, 13 crianças amanheceram ontem na pediatria clínica. Três foram transferidas para outros hospitais, quatro permanecem internadas e as demais tiveram alta. As transferências não foram feitas de forma imediata, pois as duas ambulâncias estavam com problemas. Uma sem sirene e outra com defeito na bateria, que foi consertada e voltou a rodar à tarde.
O HC tem um dos maiores programas de residência de Pernambuco. São 237 médicos em especialização, 16 deles na pediatria, onde são internadas 52 crianças por mês.
Além de diferentes problemas na estrutura física, o hospital da UFPE tem leitos fechados por falta de pessoal. O déficit de 500 trabalhadores sobe para 900 se considerar a abertura da emergência, cujas as obras já foram concluídas, e de outros serviços.
Fonte: Jornal do Commercio



