Irmãs do carregador de bujão de gás Esdras Xavier Carneiro, 37 anos, o primeiro a ter a morte por dengue confirmada este ano em Pernambuco, suspeitam que houve negligência na assistência. Ele morreu na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Igarassu, Grande Recife, mais de 12 horas depois de ter dado entrada com dor abdominal intensa, vômito com sangue e dificuldade respiratória, sinais da forma grave da doença. “Antes, procurou a UPA de Paulista, foi medicado e mandado de volta para casa”, denuncia Elda Carneiro, 36.
Segundo ela, Esdras faleceu no dia 14 de abril e só ontem a família ficou sabendo da causa real. “Na UPA de Igarassu, suspeitaram de tuberculose e de problema causado pelo cigarro”, relatou. Na unidade, Esdras “foi internado na noite do dia 13 na sala amarela, gritando de dor, aguardando ambulância para ser transferido a um hospital no Recife”, disse Élida, outra irmã. Na manhã do dia seguinte já estava na sala vermelha, sedado, no oxigênio, e a explicação era de que esperava vaga para transferência. A morte ocorreu à tarde e, segundo a família, o laudo inicial do Serviço de Verificação de Óbito (SVO) apontou hemorragia pulmonar.
A doença começou no dia 9, com dores de cabeça e por todo o corpo. Esdras morava na Avenida Sairé, em Artur Lundgren I e não em Paratibe, como foi divulgado inicialmente pela Secretaria de Saúde do município (os bairros são vizinhos). Deixou um filho de 12 anos.
A Secretaria de Saúde de Paulista explica que o primeiro exame de sangue feito no paciente deu negativo para dengue. Outra hipótese seria leptospirose. Mas o bairro onde Esdras vivia tinha alta infestação de Aedes aegypti e enfrenta racionamento d’água. Outras duas pessoas da família também tiveram dengue no mês passado. Ontem, equipes da vigilância ambiental estiveram no local para orientar a vizinhança.
As UPAs de Paulista e de Igarassu são estaduais e gerenciadas pelo Imip. A assessoria de imprensa das unidades emitiu nota informando que no dia 9, às 12h42, Esdras deu entrada na UPA de Paulista “com dores musculares, não apresentava prostração, foi medicado e, às 14h, recebeu alta com orientações médicas”. Sobre o atendimento em Igarassu alegou que o prontuário já tinha seguido à Secretaria Estadual de Saúde. A coordenação das UPAs só irá se pronunciar após investigação do Estado e do município.
A coordenadora Estadual de Combate à Dengue, Claudenice Pontes, informa que um Comitê de Óbitos investigará os fatos. O prontuário enviado ao Estado pela UPA de Igarassu relata que no dia 13 Esdras apresentava dor abdominal e vômito com sangue. A transferência para UTI teria sido solicitada às 10h do dia 14. Quatro horas depois o paciente sofreu parada cardiorrespiratória. De acordo com Claudenice, o SVO suspeitou de dengue e acionou a Secretaria Estadual de Saúde. Fragmentos de vísceras foram encaminhados ao Laboratório de Saúde Pública (Lacen), que confirmou a doença. Infectologistas e protocolos do Ministério da Saúde consideram vômito e dor abdominal sinais de agravamento da dengue. Especialistas recomendam em situação de dengue grave a transferência imediata a hospitais de referência que tenham UTI. Há outras 17 mortes em investigação.
Fonte: Jornal do Commercio



